Até Vila do Conde se for preciso

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Até Vila do Conde se for preciso

Mensagem por Saturn em Sab 27 Dez 2014, 00:47

A noite ia passando e os raios de sol escasseavam. As ruas estavam desertas. A ressaca do Natal ainda não tinha passado para muita gente e o frio não convidava ninguém a sair de casa. Acabado de chegar ao seu prédio, Micael Estefari, uma das mais recentes contratações da UWL, subia as escadas. Degrau a degrau. Isto até se cruzar com uma vizinha de seu nome Julieta Silva. Era uma senhora já na casa dos 60, vestida com um simples fato de treino. Na sua cabeça não existiam cabelos castanhos, apenas brancos. Todo o prédio a chamava de senhora branca por causa disso mesmo. Micael, motivado pela ação inspiradora daquela simples senhora decidiu abordá-la antes do desafio que se avizinhava a esta.

ME: (Feliz; após retirar os óculos de sol) Sra. Branca! Prazer em vê-la. Com que então vai correr? (Não dando tempo para a senhora responder) Faz muito bem! É bom ver que existe alguém que não vê obstáculos à frente! Uma corridinha faz sempre bem. Faça sol, faça chuva, o mais importante é seguirmos os nossos gostos e não deixarmos que sejam os outros a definir o que fazemos. Todas aquelas vozes negativas a dizer o que devemos ou não fazer. Quem são eles, Sra. Branca? (Não dando tempo de resposta) Ninguém! Isso mesmo. Olhe, sabe que mais? Como estou tão satisfeito por vê-la motivada a fazer algo que gosta, até a acompanho, se não se importar. Só preciso de 5 minutos para trocar de roupa e já estou aqui pronto.

Julieta permanecia parva a olhar para Micael que não se calava. Já tinha tentado falar, mas sem sucesso.

ME: (Subindo as escadas, mas a olhar para a sua vizinha) Vamos Sra. Branca! Correremos até Vila do Conde se for preciso.

Sra. Branca: Micael, por favor ouça-me.

O lutador pára e retrocede uns degraus.

Sra. Branca: Eu apenas vou ao correio. Mas se planeia correr, digo-lhe já que dão chuva para hoje. Ainda se constipa e isso ainda dá para o torto… veja lá.

Estefari coloca os óculos de sol e respira fundo. Tinha ficado afetado. Criou demasiadas expectativas sobre algo que não valia a pena. Afinal a vida não é dele, mas sim de outra pessoa. Erro básico de Micael. Pelo menos era assim que ele pensava, quando a abriu a porta de casa com as mesmas chaves de casa de sempre (como quem diz três meses).

O “Treinador da Vida” é recebido pelo seu gato Perri. Também este estava triste. O ambiente naquela casa entristecia a mais alegre pessoa. Pelo menos até Perri ligar a televisão de forma involuntária. O ambiente na TVI era muito mais animado. Estava a dar Somos Portugal numa terra desconhecida para 60% da população portuguesa.

ME: (Abalado) Não Perri. Nem o Nuno Eiró me anima hoje.

Micael senta-se numa cadeira e pega no seu computador. Permaneceu em silêncio por vários minutos. Parecia estar em trabalhar em alguma coisa. Quiçá num novo livro.

ME: (Dirigindo-se para o seu gato) Acho que vou escrever um novo livro, Perri. Um livro mais sério, a abordar um novo capítulo da minha vida.

Perri: Miau.

Estefari sabia o que aquele miau queria dizer. Significava: “Não fodas mais a tua vida, já se percebeu que não escreves nada de jeito. Dedica-te ao wrestling”. Micael sabia disso, mas não se sentia preparado para realizar um vídeo sobre a sua entrada na UWL. Talvez noutro dia.

ME: (Resignado consigo mesmo) Não. Não posso deixar o sedentarismo e as indecisões vencerem-me. Que se lixe. Micael Estefari irá hoje falar ao mundo.

Sem hesitar, o lutador levanta-se e pega numa câmara. Coloca-a no centro da mesa e liga-a, para felicidade de Perri que parece tentar aplaudir o seu dono. Sem mais demoras a câmara é ligada.

CÂMARA ON

ME: (Confiante; retirando os seus óculos de sol) Olá a todos. Eu sou Micael Estefari e podem-me conhecer devido aos meus sucessos na área da literatura. Eu sei que, provavelmente, querem que fale dos meus sucessos, como por exemplo “O Menino Sábio da Ribeira” ou até mesmo o “Vento Pesado da Páscoa”, mas não é por causa disso que estou aqui. Como sabem, ou não, assinei com a UWL. Assinei porque isso é o que eu quero para mim. Não se preocupem que continuarei com uns projetos à parte que poderão apreciar em breve, espero, contudo a minha prioridade agora é o wrestling. Porquê? Porque é isso que eu quero para mim. O que eu quero é o mais importante. Não me interessa se o Zé pensa que devo ser agricultor ou que o Manel ache que lá por eu ter uma voz doce e angelical me deva virar para a música. Não.

Pequena pausa. Micael abana o seu cabelo. Um tique que o luso-italiano ganhou ao longo dos anos e que teima em perdurar.

ME: (Determinado) Só existe uma pessoa que deve decidir as coisas por ti. Essa pessoa és tu, pois quando chegar aquele momento chave, decisivo da tua vida quem estará lá a arcar com as consequências serás tu. Deixa que os outros te mudem para melhor. Pensa sempre duas vezes quando te dão um conselho. Nem todos os conselhos te podem ajudar, acredita. Olha o meu caso: quando tinha 16 anos decidi ter uma tartaruga. Coisa normal para muitos adolescentes. Afinal as tartarugas ninjas são só das melhores invenções da humanidade. Mas, voltando lá à história, tinha uma tartaruga.

Estefari pega numa garrafa de água que tinha a seu lado e toma um gole. Balança a cabeça para trás e volta a mirar a câmara. Aí inclina-se e continua a sua história.

ME: (Executando alguns trejeitos com a mão) Toda a gente achava estúpido eu ter uma tartaruga. “Ah Micael isso é ridículo. Tens lá idade para teres um bicho como esse. Essa tartaruga não ficará como as que vês na TV”. Balelas. Passado algum tempo comecei a acreditar que não devia ter aquilo bichinho inocente. Então, após levar um mês com aquele discurso de quem não tem nada que fazer e por isso goza com a minha tartaruga, decidi entregar o animal ao meu primo que na altura tinha uns 11,12 anos. Muito bem. Nunca mais me lixam a cabeça e de vez em quando posso ver o Donatello. Isto até ter descoberto uns dias depois que a tartaruga tinha morrido. Afinal o meu primo não tinha a certeza se as carapaças eram duras e por isso atirou o bichinho do 5º andar para o chão.

Micael coloca o punho cerrado junto à sua testa e respira fundo. Ainda hoje esta história o entristecia. Sem querer dar parte fraca, o luso-italiano erga a cabeça e cruza os braços.

ME: (Com um olhar vago; sem olhar diretamente para a câmara) Fiquei triste. Fiquei. Era o meu animal de estimação e 12 anos depois posso dizer que apenas tive mais um animal de estimação. O meu gato Perri que encontrei junto a um caixote do lixo. A partir daquele dia comecei a ver a vida de uma forma diferente. Se já era alguém que acreditava em si mesmo naquela altura, agora acredito o dobro. Sempre que erro, sei que vou errar outra vez, mas não me importo.  Porque a vida é assim. Não dá para alterar. Claro que nos devemos arrepender ou até mesmo culparmo-nos em certas ocasiões. Não éramos humanos se não o fizéssemos.

O “Treinador da Vida” passa a mão pelo cabelo. A expressão facial do lutador alterou-se. A convicção volta a surgir no rosto de Micael que aponta o indicador da mão direita diretamente para a câmara.

ME: (Decidido) Entrar na UWL pode ser um grande erro. Posso fracassar e mais tarde arrepender-me, mas é altura. Altura de finalmente fazer o que gosto, ser alguém no mundo que sempre quis participar. É altura de Micael Estefari brilhar.

O vídeo termina com o lutador a fazer uma pose para a câmara.

CÂMARA OFF

ME: (Alegre) Viste, Perri?! Os meus tempos de glória vão regressar, Perri! Viste este vídeo? Ui…. Lindo. Estou é cansado. Vou ver se descanso um bocado. Já volto.

Estefari dirige-se até ao seu quarto e atira-se para a sua cama, adormecendo em poucos instantes.
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Saturn

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