Irrupção da realidade

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Irrupção da realidade

Mensagem por Shotgun em Seg 29 Dez 2014, 05:45


Uma câmara foca um escritório com uma melodia progressiva no fundo. Nem demasiado claro para incandescer, menos escuro do que o suficiente para ter medo. Sentado numa típica cadeira de escritório de cor negra está um indivíduo de camisola térmica, também ela negra. Cabelo puxado para trás, mas as pontas estão soltas. Como acontece durante o ciclo da vida. Porventura um sinal de pouca ordem, de inquietação. Pura desordem.

Ao inclinar a cadeira para trás, mas sem risco de queda, inclina as pontas no sentido correto, acompanhando os outros fios de cabelo que representam uma união perfeita. Revertendo a sua inclinação o protagonista aproxima-se da câmara. A mão direita evita problemas: ao proteger o cabelo defende o controlo e constrói a organização. Após alguns segundos de sossego onde a música desvanece ao ritmo de inspiração profunda. Após pestanejar de forma leve, olha para baixo e pousa algumas folhas que entretanto observou. Molha os lábios. Nova pausa, de seguida fixa os olhos na câmara duma forma doentia pela primeira vez. Como se todo um estado de espírito se tivesse renomeado.


Edward Hosking: Foram infindáveis.

Após tossir e coçar o sobrolho por muito breves momentos, volta a ajeitar o cabelo.

Edward Hosking: Durante uma eternidade; estas mudanças repentinas pareciam reais. Até para mim. Engolido num mar de personalidades tudo se tornava difícil e inesperado como se a invenção se tivesse virado contra o inventor e senhor. Mas a verdade é que tudo tem uma resposta, várias até. Para mim, Edward Hosking, a questão nunca foi sobre o cabelo. Tão pouco mudar repentinamente os olhares, criar medo por uma simples questão casual. Porque nada é casual, cada qual com os seus fundamentos e razões. Meticulosamente planeadas.

Bruscamente, Hosking varre a mesa em que também está presente a câmara e atira as folhas para o lado. Voam por breves momentos até chegarem ao solo e lá permanecerem.

Hosking: Sempre foi por uma questão de controlo. Assertiva ou erraticamente. Ter o domínio e o comando de mim próprio e todos aqueles que me orbitam durante esta vida. Porque nesta sala, no ringue em que brevemente estarei perante todos ou na casa das trevas a missão é a mesma. Sabem...

Olha para o chão por alguns segundos, é incerto saber porquê no momento imediato. Esfrega as mãos e de seguida debruça-se por cima da secretária com algum estrondo, mas com uma expressão contraditória a mostrar paz.

Hosking: Dá-me prazer ter controlo sobre mim próprio. Satisfaz-me. É verdade que nesta sala não reside mais ninguém a não ser as personagens que eu trago à vida quando mais me convém e me auxilia. Se assim não fosse, só Deus — uso este maravilhoso termo de modo metafórico, domino as minhas crenças e não o contrário — saberia o que podia ter feito em ordem de manipulação. Porque às vezes e aparentemente contra a nossa própria vontade fazemos algo que não nos agrada num primeiro momento para colocar o alheio na palma da mão. Mas num segundo instante tudo se torna mais claro: os frutos estão colhidos e tudo valeu a pena. É apenas uma questão de flexibilidade e responder à pergunta para qual há muitas respostas, mas apenas uma totalmente legítima: até onde estás disposto a ir pela concretização de uma ideia para benefício próprio?

Pela primeira vez o lutador levanta-se e podemos ver a indumentária na sua totalidade: não só a camisola é negra, como todo o vestuário partilha os mesmos tons. As calças também o são, assim como as pesadas e de solta alta, dignas de um militar que, quando em missão, raramente tem o controlo sobre o seu destino. Abaixa-se e levanta as folhas, as quais olha com ódio como se estivesse a lembrar ou visualizar algo digno de um sonho angustiante. Senta-se novamente na cadeira e mete as mãos sobre a mesa, a qual esmurra com alguma força gerando o impacto apropriado para o momento. A câmara treme por alguns momentos.

Hosking: As coisas são simples. Ou controlas a tua vida ou não. Ou morres a controlar ou acabas a vida a servo de uma sociedade que não te dá a mínima importância. Coloco as coisas em planos relativamente simples. Sei nadar, apesar de não ter tido muito tempo para o fazer. Ao ver algumas das ondas que os mares que rodeiam este país produzem fico petrificado. Mas não me aproximo pois controlo a minha rota, a minha localização e qualquer passo. O meu pior pesadelo é estar indefeso a poucos metros da segurança numa altura em que a água não me passe dos joelhos e repentinamente uma onda monumental me engula. Além de não ter qualquer tipo de controlo, deixo de decidir sobre a minha própria vida. Maior tormento é impossível. Mas assim nunca será.

A frieza do inglês é neste momento transmissível através do seu olhar vidrado.

Hosking: Todas as questões devem ter várias interpretações e perguntadas em diferentes cenários. Método esse que frequentemente utilizo para me recordar dos meus fundamentos. Mas no fim do dia tudo é uma questão de caos aparente: as pessoas motivam-se pela balbúrdia e pelo desassossego. Quanto mais real for a agonia, mais se aproximam. E aí surgem os alter-egos, os meus. Na demanda da controlo. Da manipulação e do benefício próprio. Durante todo esse processo coloca-se novamente a questão: até onde estás disposto a ir pela concretização de uma ideia para benefício próprio?

O lutador levanta-se, ajeita a camisola e o cabelo.

Hosking: Dentro do quadrado não há limites para a concretização de uma ideia. O controlo é ainda mandatário, é a única pessoa. Quem quer que seja a personagem que eu encene. A concretização de uma ideia é o maior gáudio mundano num meio sem escrúpulos para a exploração caos. Mas nem tudo o que parece, é.

Pontapeia a cadeira para junto da mesa e afasta-se. A imagem vai desvanecendo.

Hosking: E comigo, tudo é relativo a não ser a minha sede de vitória, de concretização, de manipulação e controlo. Num Kerosene perto de si.

O inglês ajeita o cabelo por uma última vez e sai de cena a passos relativamente largos ao som dos seus passos, marcados pela brutalidade do seu calçado. A porta bate e o último ruído audível antes do total desvanecimento da imagem é o aparente eco da sala. Pouco é real.

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Shotgun Eddy

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