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Mensagem por Shotgun em Ter 30 Dez 2014, 21:08


VIAGENS E INTROSPEÇÕES PESSOAIS COM DESTINO A ESSEX, 25 DE DEZEMBRO DE 2010.

Era dia de natal no sudeste inglês. Raios, era Natal em quase todo o mundo. O dia em que tudo me pertencia, mas o dia em que nada me pertencia. O dia em que a realidade se afastava à medida que o vento soprava e esvoaçava pelo meu rosto repleto de barba. O ano seguinte seria o último em que iria deixar crescer pêlo no rosto por mais de uma semana. Seria o ano em que me mentalizaria de facto que este é um mundo mentiroso que antagoniza qualquer tipo de ordem pois está na natureza descuidada do humano viver na intriga e na procura do eixo do mal que rodopie constantemente na sua direção. Lembro-me de usar o casaco castanho nesse dia. Que falta me tem feito, aqui em Portugal. Retira-me algum conforto e não me posso dar ao luxo de me queixar. Não porque não posso, mas sim porque não quero. Um dia metódico é um dia de sucesso e de fidelidade perante tudo aquilo que sempre aspirei.

Foi o dia do meu último cigarro do ano. Sempre ouvi que São Nicolau repudia qualquer odor que lhe coloque fumo no pensamento. Não, brinco. Queimei-o no ano anterior. O verdadeiro mistério do porquê era na verdade muito simples. O dinheiro não abundava, mas esse nem era a situação que gerava o maior entrave. Tinha adquirido contactos em Liverpool após a minha última visita a Merseyside, em outubro desse mesmo ano. Contactos que me fariam dinheiro e me trariam estabilidade. Claro que tudo isso passava pelo quão bem conseguiria fingir levar com um murro ou ocasionalmente levar uns pontos aqui e ali. Claro que quem o fazia; mas isso é outra história. Não divaguemos. Os tipos queriam que lutasse e rapidamente os convenci a aceitar os meus termos.

Jamais teria dado vida a uma personagem tão falsamente humilde e ambiciosa num dia perfeitamente casual pois além de não haver necessidade para tal esta era uma ocasião especial e o que contava era a continuidade. Aliás, foi uma das poucas vezes onde tive de de manter contacto com um alter-ego durante meses. Os tipos eram exigentes com a etiqueta e trabalhava por aparições. Não ages como um abutre disfarçado de criança que está ansiosa por ver o pai regressar com o maço de cigarros — escusado concluir o meu raciocínio —, não recebes. Como é óbvio eu ganhei e tornei-me o rei da montanha. E precisava do dinheiro. Mas sabia bem mandar o travo de subtileza e ao mesmo tempo ter o poder de hipnotizar multidões. No primeiro trimestre beijavam-me os pés, na primeira dúzia de meses consideraram o sexo oral. Mas gosto de ter o controlo e os seus métodos eram demasiado radicais. Abortei a ideia tremendamente rápido.

Essex tem um bar ótimo. Foi lá onde bebi mais de cinco cervejas pela primeira vez em quase meio ano. Nunca foi uma das minhas grandes paixões, estranhamente. Prefiro ver os outros fazê-los até caírem e ficarem sem pulso. Foi lá onde telefonei à minha mãe e lhe tentei desejar um feliz Natal: ela não atendeu. Presumi que estivesse em casa de amigos — fossem eles quem fossem — ou que simplesmente estava a ignorar o filho que saiu de casa a tempo de não lhe promover a vassalo do rei. Estava sim em casa e ignorou tudo e todos até hoje. E amanhã fará o mesmo. Estava morta. Não foi uma realização propriamente simples já que toda a gente foi informada primeiro que aquele que, apesar de sempre contrariado e profundamente tempestuoso, a tornava relativamente feliz dentro dos limites que impunha. Achavam-me instável, doente, inconscientemente instável e ousado. Foi a melhor notícia que recebi todo o dia. A minha ideologia e as minhas crenças continuavam a gerar dúvida, agonia e insegurança em todos aqueles que me rodeavam. Tinha tudo para os controlar. E assim o fiz na próxima vez que visitei Canterbury.

Mentalizaria-me verdadeiramente nesse dia, mais tarde, que sou um génio. Além de ser mais inteligente que aqueles que me passavam, cruzavam ou abordavam num dia comum, as minhas personagens eram também superiores. Mais robustas, capazes de encenar uma peça perfeita sem um gaguejo ou rasgo de dúvida. Uma das razões para me alistar ao mundo do pro-wrestling foi exatamente a de ser tudo mais fácil a cada dia que passava. Alguém sem caos e com uma vida perfeitamente alinhada como uma série de planetas, algo que acontece com uma raridade imensa, precisava de um desafio para adoçar as coisas e continuar a treinar. Surgindo as oportunidades, só posso agradecer a mim próprio pela destreza.

Após uma enorme chuvada continuava pelas ruas e consegui esquivar-me a uma repentina poça de água que se instalava estrategicamente para reter a atenção de quem por ali passava. Ajeitei o cabelo e pensei naquilo durante uns segundos. Esbocei um ligeiro sorriso, virei-me para trás e olhei. Se bem me recordo peguei nela e parti-a ao meio, deixando estupefactos todos os presentes. Aplaudiram-me de pé e de seguida adormeci no meio da estrada antes de ser aspirado por um buraco negro originado pelo alinhamento dos planetas. Novamente, digo, não me recordo totalmente se as coisas decorreram exatamente assim e não necessariamente por esta ordem.

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Shotgun Eddy

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