Amanhã será um dia melhor

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Amanhã será um dia melhor

Mensagem por Saturn em Qua 31 Dez 2014, 00:01

Micael Estefari encontra-se no interior do seu quarto de hotel em Lisboa. O luso-italiano tinha chegado à capital portuguesa há pouco mais de três horas acompanhado pelo seu gato Perri. O quarto de hotel era acolhedor e simples. A roupa do lutador encontrava-se espalhado por todo o lado, mostrando a desarrumação habitual de Micael. Este último, sentado no chão de pernas cruzadas, mostrava-se sério e concentrado. Tinha um adversário à altura. Um adversário poderoso e imbatível. Missão difícil para o “Treinador da Vida” que já resistia há quase 15 minutos. O gato Perri, seu oponente e invencível no jogo do sério, continuava com a sua expressão vaga, a olhar para o seu dono. Estefari ainda tentou distrai-lo com uns movimentos bizarros com os braços, contudo Perri resistia. O seu olhar vidrado não se alterava por nada. O luso-italiano desiste e pisca os olhos. De seguida dá um pequeno estalo na cabeça do seu gato.

ME: (Levantando-se; aborrecido) Quantas vezes já te disse que não vale dormir de olhos abertos? Raio de mania que foste arranjar.

Perri assusta-se e dá um pequeno salto. Micael aproveita o cansaço do seu animal de estimação para ir para o seu computador. Tinha acabado de receber um e-mail da autoria de Eduardo Santos. Road Agent da UWL. Este informava Estefari que o Chairman da Ultimate Wrestling League Bruno Pavão pretendia vê-lo amanhã de manhã no seu gabinete.

ME: (Indignado) Já viste isto Perri? Acabei de receber um e-mail de um Eduardo lá da UWL a dizer que o presidente quer ver-me amanhã de manhã. Nem se quer se importaram o suficiente para me informarem mais cedo. Imagina se tinha planos para amanhã? Como seria? Teria que cancelar tudo para ir ter com o Pavão.

Micael prossegue, claramente revoltado com a atitude do seu novo patrão.

ME: Sabes que mais? Não vou. É isso mesmo. A minha liberdade termina quando começa a do outro. Claramente o senhor presidente desconhece essa palavra: liberdade. Se ele pretende ter uma reunião comigo, ele que me ligue para combinarmos os dois quando a reunião irá decorrer.

Perri: (Sonolento) Miau.

Estefari sabia o que aquele miau queria dizer. Significava: “Cala-te, pára de reclamar e vai à reunião antes que sejas despedido”. A expressão do lutador mudou. Acalmou-se e após pensar no assunto mais uma vez, respondeu ao felino:

ME: (Mais conformado) Talvez vá. Não sei. Vou dormir sobre o assunto. Mas quero deixar aqui bem claro que se for vou totalmente contrariado. Não se trata assim as pessoas.

Alguns minutos passaram até o lutador esquecer o assunto. A roupa tinha esse efeito em Micael. O “Treinador da Vida” tinha mudado de roupa para um estilo mais formal. Tinha um compromisso marcado com o seu agente Nuno Borges da editora LUSOLivros. Estefari previa que fosse para tratar da publicação do seu novo livro: “O Homem Sábio da Ribeira”.

ME: (Já preparado para sair do hotel) Vá, Perri. Volto já. Tens aqui o teu telemóvel (retirando-o da sua bolsa masculina). Qualquer coisa, já sabes, liga-me. Até já.

O luso-italiano abandona o hotel discretamente, sem querer dar muito nas vistas. O percurso até à LUSOLivros foi sossegado, com um episódio caricato à mistura. Quando estava no cruzamento, Estefari recebeu um encontrão involuntário de um jovem na casa dos vinte e poucos anos. Típico encontrão, frequente numa roa movimentada, geralmente seguido de um pedido de desculpas. Como Micael é uma pessoa muito desconfiada, suspeitou logo o pior. Não era a primeira vez que era roubado numa situação semelhante. Sem hesitar, o lutador a UWL decide parar o homem e interrogá-lo.

ME: Desculpe. Pode devolver-me a carteira?

O homem, surpreendido com a reação de Micael, não demora muito a responder.

H: (Parado; a 5 metros de distância de Estefari) Gostava de poder ajudá-lo, mas não tenho a sua carteira.

ME: (Removendo os seus óculos de sol) Porque devia de acreditar em si?

H: Porque vejo a sua carteira no seu bolso das calças.

ME: Fique sabendo que já conheço esse truque. Quando revistar os bolsos das calças o senhor vai fugir e eu, como estou a usar umas calças justas e estou notoriamente cansado, não conseguirei apanhá-lo. Não é assim?

H: (Braços cruzados) Um verdadeiro professor apenas explica a sua matéria uma vez e quando a aula termina ninguém esquece as suas palavras. Olhe para baixo.

Estefari olha para baixo e vê a sua carteira de imediato. Ao aperceber-se da vergonhosa atitude que tinha tido para com aquele homem, o luso-italiano ainda tentou pedir desculpa, mas quando levantou de novo a cabeça, não estava lá ninguém. O homem tinha desaparecido no meio da multidão.

Micael pensou no sucedido durante algum tempo. Aquele homem era-lhe familiar de algum lado. O lutador acabaria por distrair-se de tal forma que parece que apenas acordou quando entrou no escritório de Nuno Borges, seu agente. O cumprimento de mãos habitual seguiu-se naturalmente. Nuno é considerado por muitos como um ser humano insuportável. Do mais cínico que há, pondo sempre os negócios acima de tudo. Estefari, por já ser amigo de infância de Borges, sempre optou por ignorar os aspetos negativos deste, apesar dos vários avisos do seu gato.

NB: Senta-te Micael. Ainda bem que pudeste vir.

Micael senta-se e encosta-se na cadeira. O escritório de Nuno era grande e a paixão deste pela arte era facilmente notada através de múltiplos quadros abstratos expostos na parede.

NB: (Também ele sentado) Vou ser breve Micael. Não mereces que esteja que com rodeios. Conheço-te há demasiado tempo para isso.

ME: Sim. Desembucha.

Nuno olha diretamente nos olhos do luso-italiano e num tom seco e rouco, Nuno diz…

NB: A tua carreira de escritor acabou, Micael.

Estefari fica surpreendido e começa a rir-se. O sentido de humor do seu agente é peculiar e para o lutador, esta era mais uma partida infeliz da parte deste.

NB: (Rindo-se) Normalmente os meus clientes não reagem assim, mas sempre foste muito único. Obrigado por suavizares a situação.

ME: (Já a aperceber-se da situação) Estás a gozar, certo?

NB: Micael: a LUSOLivros terminou o contrato que tinha contigo. Receberás uma indemnização como é óbvio, mas a tua carreira terminou, amigo. (Pequena pausa) Ainda bem que conseguiste aquilo das lutas, senão estavas desempregado.

Estefari continua em choque, petrificado, enquanto Nuno continua a ser inconveniente.

NB: (Dando uma palmada no braço do lutador) Anima-te homem! Existem pessoas em pior situação que tu. A verdade é que mais nenhuma editora te vai aceitar e eu irei deixar de ser teu agente. Sabes como é….. Inconveniências profissionais. Contudo, nunca deves desanimar. Vá lá! Mostra o Micael que eu conheço desde pequeno.

ME: (Esperançoso) Vou conseguir contrato com outra editora. Vou conseguir.

Nuno ri-se descaradamente.

NB: Então, Mica…. Achava-te uma pessoa com uma maior noção da realidade. Por muito que me custe dizer-te isto, mais ninguém vai querer ajudar-te.

Micael levanta-se e retira o seu cachecol de forma agressiva. Estava farto de ouvir o seu agora antigo agente.

ME: Enganas-te, Nuno. Micael Estefari conseguirá um contrato com uma editora. Di questo ti assicuro.

Borges suspira.

NB: (Sussurrando) Otário.

O luso-italiano abandonou rapidamente o escritório. Não queria ouvir mais más notícias. Ainda em choque com tudo o que aconteceu, Micael decide ligar ao seu gato Perri. É então que repara que tinha sido roubado. O seu telemóvel não estava consigo. Totalmente frustrado consigo mesmo, Estefari paralisa e senta-se no chão. Uma lágrima é derramada. Esta acabaria por passar pela ponta do bigode do lutador, chegando-lhe até ao pescoço. O “Treinador da Vida” não reage. Sentia-se incapaz de reagir.  
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Saturn

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