Como diria o Gula, 'tá limpo.

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Como diria o Gula, 'tá limpo.

Mensagem por Sabor Gerações em Qua 31 Dez 2014, 06:35

(31 de Dezembro, 23:00, algures em Lisboa)

Jorge Gante e outro indivíduo miram a chuva que escorre do outro lado da janela daquele apartamento luxuoso, decorado por mobília moderna e sofisticada. Ambos fumam um cigarro acompanhado dum copo de whisky atenuado por duas pedras de gelo, em cada copo.

O indivíduo vestido com um fato preto, daqueles fatos dispendiosos que compram o próprio dinheiro, contrastado por uma camisa branca e uma gravata vermelho vivo, da cor do sangue. Gante apenas com os seus cabelos longos como suporte de um gorro cor de vinho, uma t-shirt casual branca e uns calções negros, desportivos.


Indivíduo (ainda com o olhar através da janela): Continuo a dizer-te que não me agrada nada a ideia de teres assinado com essa companhia de wrestling sem me teres consultado primeiro. Eu sou o teu agente artístico, lembras-te?

Jorge Gante (revirando o olhar para o indivíduo ao seu lado): E também és o meu melhor amigo desde que somos putos, lembras-te? Que raio de conversa é essa? Pensei que fosses ficar feliz por mim, Afonso.

O lutador da UWL parecia algo tenso com as palavras do seu amigo que permanecia imóvel, levando apenas durante breves momentos o copo de whisky à boca e emitindo um breve ruído de prazer ao senti-lo a queimar a garganta.

Afonso: Tens uma carreira artística no início, muito elogiada pelas pessoas que interessam neste ramo. Podíamos começar a pensar num novo livro que te desse muito, muito dinheiro. Um romance que vencesse todos os prémios e mais alguns. Podíamos pensar nele em conjunto, como uma equipa...

Gante torna-se então para Afonso com um movimento impetuoso e agressivo do seu corpo.

Jorge Gante (elevando o seu tom de voz): É isso então, o dinheiro? Eu não desisti da arte, apenas descobri uma nova forma de a concretizar. Esperavas o quê? Que merda de pensamento é esse de delinearmos um novo livro para as massas?

Afonso (tentando sobrepor a sua voz): Eu como teu agente artist...

Jorge Gante (interrompendo Afonso): Tu como meu amigo devias saber que essa merda de conversa é um insulto para mim! Queres que eu seja o quê? O novo Gula da literatura e escreva um Gancho para finalmente fazer dinheiro com as minhas capacidades e talentos, indo contra tudo o que sou?

O agente fica em silêncio por alguns segundos, parecendo reflectir sob e sobre as palavras do artista.

Afonso (retomando o diálogo, relutante): Ao menos o Gula agora está bem na vida, por exemplo. A viver como quer.

Jorge Gante (numa reacção imediata): E o que é que lhe custou isso? A sua própria moral nas ruas? O respeito daqueles que o respeitavam quando ele criticava tudo aquilo em que acabou por se tornar? Há coisas que o dinheiro não paga nem traz de volta, porra.

O agente volta a silenciar-se, deixando Gante na expectativa duma resposta. Ambos dão algumas passas nos seus cigarros esquecidos. A chuva já não cai do outro lado da janela.

Afonso (num tom vencido): Ao menos... Esse contrato?, é lucrativo?

O ex-marido de Alexandra sorri, antes de soltar algumas gargalhadas.

Jorge Gante: Eu voltei ao wrestling com um propósito, e não é o dinheiro e tu devias saber isso. Se eu quisesse usufruir das minhas capacidades enquanto lutador única e exclusivamente para fazer dinheiro mais depressa ingressava numa das muitas companhias de Vale Tudo europeias, das quais eu inclusive cheguei a receber convites e propostas concretas até, e recusei. São onde estão os verdadeiros lutadores. Provavelmente lutaria 3 ou 4 vezes por ano, e faria muito dinheiro, tanto ou mais do que aquele que vou fazer na Ultimate Wrestling.

Afonso, o velho amigo, abana a cabeça e contrai o rosto como forma de derrota.

Jorge Gante: Entendes-me agora?

Afonso (sorrindo pela primeira vez): Sim, entendo. Desculpa... Só estava a tentar lutar pelos teus interesses, como teu agente, e esqueci-me de que somos verdadeiramente amigos e de que há coisas maiores do que nós, do que o próprio dinheiro. Não precisas de me explicar os teus motivos, eu simplesmente... Entendo-os. E estarei sempre do teu lado, sejam quais forem as tuas decisões.

Gante dá uma palmada de camaradagem nas costas de Afonso.

Jorge Gante: Deveria sentir-me sortudo por isso?

Afonso (erguendo o seu copo de whisky): Não... Façamos um brinde.

Jorge Gante (erguendo também o seu copo): O que propões?

Afonso (colidindo o seu copo com o de Gante, suavemente): Que brindemos ao teu 2015, Jorge, repleto de sucessos e vitórias pessoais, daquelas que só tu podes conquistar. Sei que tens um torneio muito importante em breve. Vai-te a eles... Anti-Gancho.
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Sabor Gerações
Miguel Rossiter

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