Nem tudo nesta vida pode ser fácil

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Nem tudo nesta vida pode ser fácil

Mensagem por Fenomenal em Ter 06 Jan 2015, 03:38

6 de Janeiro de 2015, Terça-Feira

São dez da manhã e estamos em Odivelas. Para ser mais preciso estamos nas Colinas do Cruzeiro, a zona mais cara da cidade, onde nem todos os comuns mortais conseguem ter a sua casa. Mas é nas Colinas do Cruzeiro que Alexandre Torres, bon vivant e homem de grande preguiça, tem a sua casa…ou melhor dizendo, é aí que Alexandre Torres vive, juntamente com a sua mulher, num apartamento que é propriedade dos seus pais.

Torres está na sala do apartamento, a jogar um pouco de FIFA 15 na sua PS4. O ecrã colossal do LCD, que ocupa uma das quatro paredes da sala quase por completo, a juntar às enormes e poderosíssimas colunas de som da sala proporcionavam uma boa experiência de jogo para Alex que, sentado no seu sofá, comia o pequeno-almoço, um pacote grande de Doritos Tex Mex, enquanto ia jogando.


Alex (jogando apenas com uma mão, ao mesmo tempo que com a outra vai tirando Doritos do pacote e comendo-os): Ó, Ó, QUERIAS!!!

Com uma mão só Alex faz com que o seu jogador faça um carrinho que bloqueia o remate que o adversário tentou à boca da área. Um outro jogador seu apanha a bola e Alex larga os Doritos, agarrando o comando com as duas mãos.

Alex: Vá, troca de flanco, isso… passe perfeito! Solta rápido, tabelinha, um dois…já foste! Está no um contra um, vai sem medo…é a vírgulaaaa!!! Centro com conta, peso e medida, pontapé de bicicleta…

Alex salta do sofá, erguendo bem alto a mão direita, com que segurava agora o comando.

Alex (gritando entusiasmado): É GOOOOLOOOOOOOOO!!!!

Assim que os festejos dos jogadores de Alex acabam, o jogo recomeça, o árbitro apita para o seu final, e o menino de 27 anos deixa-se cair de rabo no sofá, com uma expressão de aborrecimento que, do nada, lhe surgiu na face.

Alex (com frustração): É pá…

O ecrã enorme mostrava o resultado do jogo: “Gil Vicente 11 – 0 Real Madrid”.

Alex: …já inventavam um nível de dificuldade mais lixado que o lendário.

Torres deixa cair o comando da PS4, com a despreocupação de quem não teve que suar para o comprar, e volta a comer os Doritos com um semblante pensativo.

Ninguém diria que este homem de barba por fazer e abdominal flácido, que estava esparramado no seu sofá a comer batatas fritas logo pela manhã, com o seu robe estranho e vistoso, com todas as cores do arco-íris, e as suas pantufas com cãezinhos foi o mesmo homem que, há uns dias atrás, se excedera em todos os testes físicos e técnicos em que participou para poder ingressar na Ultimate Wrestling League, a mais recente federação de Wrestling profissional em Portugal.

No mínimo, há que dizer que Alexandre Torres não aparentava ter o perfil de um Wrestler profissional, fosse lá o que fosse isso do “perfil de um Wrestler profissional”. Certo é que um homem que apesar de ter aquecimento central no seu apartamento, preferia não usufruir dele para, ao invés disso, poder andar pela casa com o seu robe quentinho e as suas adoráveis pantufas, simplesmente porque se sentia confortável assim, não encaixava nesse dito perfil.

Enquanto ia acabando com os Doritos, Alex pensava no porquê de ter tido a iniciativa de tentar a sua sorte na UWL quando ele nem sequer gostava de Wrestling. Certo que ele já tinha estado numa Academia da modalidade anteriormente, na Birmingham Wrestling Academy, escola fundada pelo lutador aposentado Ricardo Soares, num Verão que passou em Inglaterra, e que se deu bastante bem no desporto, impressionando todos os treinadores, mas nem por isso tinha gostado da experiência.

Já antes dessa breve passagem pelo Wrestling tinha passado uns anos no Jiu-Jitsu brasileiro e, ainda antes disso, uns tempos no Karaté, mas também é verdade que em ambas as passagens fez o mesmo que na sua experiência com o Wrestling: brilhou, queimou etapas de uma maneira incrível e depois pô-las simplesmente de lado, como se nada fosse. E isto para desilusão do seu pai, homem de negócios de extraordinário sucesso, que subiu a pulso na vida, e que dizia orgulhosamente aos seus próximos que se construiu o pequeno império que construiu, isso em muito se deveu aos seus longos anos passados como praticante de Karaté, em que pôde aprender os ganhos que a persistência acabava, inevitavelmente, por trazer.


“Insistir, insistir e insistir. Trabalhar, trabalhar e trabalhar. São os únicos truques que conheço para se conseguir ser alguém na vida.” – Era o que dizia sempre o seu pai, de peito feito.

Mas esses eram valores que nunca foi capaz de incutir ao filho, para sua tristeza. Tinha sido precisamente na experiência na Academia Wrestling que o seu pai tinha ficado com maiores esperanças para uma eventual mudança de Alex, e por um simples motivo, tinha sido o seu filho quem lhe pedira para o inscrever, tinha sido ele a ter a iniciativa. Foi a primeira vez, já que quando se tratou do Jiu-Jitsu, do Karaté, ou de qualquer outra actividade em que Alex participou, excedeu-se e desistiu, fora o próprio pai que decidira o inscrever.

A verdade é que Alex julgava que o factor entretenimento existente no Wrestling iria conseguir compensar tudo o resto de que não conseguia gostar. Afinal, ele sempre olhou para si mesmo mais como um homem de espectáculo do que como um desportista. Mas, no entanto, ele não tardou em tomar conta de que, apesar do entretenimento ser um factor no Wrestling, este continuava a ser um desporto demasiado violento e sério para alguém que só queria passar um bom tempo e divertir-se.

Então por que motivo é que este homem se foi meter numa companhia como a UWL, que recrutava lutadores conceituados e prometia realizar uma rápida expansão internacional, tornando-se numa Federação a ter em conta a um nível global?

Ele não era dono de um passado duro que o tornou em algum tipo de psicótico com a necessidade de causar dor nos outros. Não o fazia pelo dinheiro, já que já o tinha - ou melhor, tinha o dos pais. E, embora o tivesse, não tinha necessidade de o exibir. E é certo que não tinha como objectivo alcançar a fama, não entrara na Federação pelo ego. Também não era um idealista obsessivo com as suas crenças, que procurava um meio para espalhar a sua mensagem. E, como já se percebeu, muito menos era alguém que desde sempre tivera o sonho de fazer carreira no Wrestling e que tinha um grande amor pelo desporto: Ele nem sequer gostava dele, já o tinha experimentado anteriormente e desiludiu-o. Mas então…porque é que Alex Torres ingressou na UWL? Qual a sua motivação?


Alex procura restos de batatas no fundo do pacote de Doritos, sem sucesso. Agarra no pacote e espreita lá para dentro, vendo-o vazio.

Alex: Já acabou? Porra, mas continuo com fome.

Alex fica por uns momentos completamente imóvel.

Alex: Hum…já sei o que me apetece.

A mais recente contratação da UWL levanta-se e vai para a sua cozinha, atacando logo um dos armários de onde tira um pacote quase cheio de Chocapic. Com passos vagarosos, Alex volta para a sala, onde se esparrama novamente no sofá, agora enchendo a barriga com cereais ricos em chocolate.

Continuando, onde é que íamos? Ah, sim, a motivação para Alex Torres decidir ingressar na UWL de livre vontade. Esta só podia ser uma, e apesar do lisboeta estar a perder muito do seu valioso tempo nesta manhã de terça-feira a pensar no porquê das suas acções, ele já tinha a resposta mais que sabida: a sua mulher, Natália Oliveira. Ela era a única razão para Alex estar a tentar a sua sorte na mais recente Federação portuguesa.


Ponto um, porque ela é uma lutadora nata, e o simples facto de ele se tornar ele próprio num lutador será algo que, pelo menos na sua cabeça, os tornaria mais próximos.

Ponto dois, porque ela tratava-se de uma amante dos desportos de combate na sua generalidade, que se via agora obrigada a deixar a alta-competição antes do tempo devido a uma lesão de alta gravidade no joelho e, na visão de Alex, acompanhar o marido na sua jornada como lutador profissional, tentando a oportunidade de o treinar seria uma boa forma de suavizar a sua transição para a reforma, tornando o processo mais fácil.

Ponto três, porque o Alex pode não gostar de Wrestling, mas gosta de sexo. E, acima de tudo, gosta de fazer sexo com a sua mulher. E ele tinha a perfeita noção que vê-lo a lutar e a conquistar vitórias no ringue deixaria a sua mulher certamente contente – não só contente consigo mesma, mas também com ele – e com vontade de o recompensar. Tal como o recompensou depois de ele ter ultrapassado todos os testes da UWL sem dificuldade. Não que o Alex seja um tarado completo, ele até é um homem com bom coração que, para além do sexo selvagem, também gosta de se agarrar ao corpinho nu e quente da sua mulher depois de tudo ter acabado e fazer conchinha. O Alex quer fazê-lo não só pelo sexo, mas também pelos mimos. E é por isso que vai lutar na UWL.

O telemóvel toca. Alex tira-o do bolso do robe e atende-o.


Alex (num tom entusiasmado): Olá amor!

Ouve-se som do outro lado do telemóvel, mas nada que se perceba. A expressão de Alex muda de imediato, para uma de enfado.

Alex (com uma voz frouxa): Não, querida, ainda não vi o show…Sim, já o vou fazer.

O lutador da UWL olha para o tecto e bate o pé impacientemente.

Alex: Sim, amor, eu também não me esqueço do almoço…Não, não vou fazer bifanas outra vez, não. Eu sei, eu sei que a carne de peru é melhor. Vá…até já amor, resto de bom treino.

Alex desliga o telemóvel e suspira. A sua mulher, mesmo ainda em processo de recuperação tinha-se levantado cedo para dar uma boa e longa corrida, ritual de que não abdicava, mesmo que fosse contra-indicado para a sua situação actual. Era algo que já fazia há anos e que não podia deixar de lado assim, tão definitivamente. Tinha a disciplina que o Alex nunca teve.

O ringue teve que ser, teve que o deixar, porque mais um golpe forte no joelho faria com que ele cedesse de uma vez por todas e condená-la-ia, no pior dos casos, a passar o resto da vida numa cadeira de rodas; algo que uma pessoa como ela não podia admitir. Pelo menos correndo ia desgastando o que restava do joelho ao pouco que, se fosse para ceder, não seria de um momento para o outro e para sempre. Ia-o magoando, mas quando tivesse que ser, quando tivesse mesmo que ser, parava. Ia aproveitando enquanto dava para aproveitar, ou pelo menos era assim que ela parecia pensar, mesmo que não fosse o pensamento mais correcto.

Alex deixa-se cair uma vez mais no sofá e agarra o comando da televisão. Sai do seu FIFA 15 e vai para as gravações. O primeiro show do Kerosene é logo a primeira coisa que surge. Depois de muito esforço, Alex tinha convencido a mulher a assistir com ele, na noite anterior, a um musical que queria ver em vez de ver o show em directo. Mas prometeu que iria logo de manhã ver os combates para analisar a competição. Se não o tivesse feito ela não teria ido com ele, certamente.

Alex salta logo para o primeiro combate, esforçando-se para manter a atenção. É Cláudio Rosas que enfrenta Hosking, numa bela contenda de abertura.


Alex: É pá, isto até tem gajos bons…eu ainda vou ter que me aleijar nisto.

Alex solta um longo suspiro e olha para o tecto.

Alex (com a voz carregada de frustração): Logo eu que gosto tanto de dor… Foda-se, Alex, mas no que é que tu te foste meter..?

Pois é, Alex, nem tudo nesta vida pode ser fácil.
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