Em memória de Antero de Quental e Henrique Coelho.

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Em memória de Antero de Quental e Henrique Coelho.

Mensagem por Sabor Gerações em Sex 09 Jan 2015, 10:13

Cam On

É focado o Pavilhão Municipal de Odivelas ainda em preparativos para o segundo Kerosene, palco das semi-finais do torneio Master of the Mat, a realizar-se na segunda-feira.

A imagem vai aproximando-se do ringue, já montado no centro do recinto, e encontra Jorge Gante sentado no seu interior, de pernas cruzadas com um livro aberto sobre as mesmas.


Jorge Gante (em tom de declamação, lendo uma página do livro): "Aqui as praias são amplas e belas, e por elas me passeio ou me estendo ao sol com a voluptuosidade que só conhecem os poetas e os lagartos adoradores da luz."

A imagem já é emitida desde o interior do ringue. O lutador fecha o livro e pousa-o à sua frente, olhando de seguida pela primeira vez para a câmara.

Jorge Gante: Antes que concluam precipitadamente que se enganaram no vídeo e estão a assistir a uma tertúlia de poesia barata, eu explico: tudo tem um propósito, e eu citar um poeta como Antero de Quental terá o seu, inegavelmente. O propósito é nada mais nada menos que... Curioso.

O semi-finalista do torneio Master of the Mat esboça um sorriso instantâneo.

Jorge Gante: E é curioso o que raio?, questionam-me desde já. E eu respondo: este Antero de Quental, açoriano de gema, orgulhoso das suas ilhas. Faz-vos lembrar algo ou alguém? Ainda não? Eu prossigo, então.

O seu sorriso vai crescendo gradualmente e a confiança na sua voz idem.

Jorge Gante: Antero de Quental foi um poeta açoriano, nascido em Ponta Delgada a 18 de Abril de 1842. Até aqui nada de errado; o início comum de qualquer biografia que antecipa ou o relato de uma história triunfante ou de uma história não tão triunfante assim. Mas divago. Não vos farei um resumo pormenorizado nem da vida nem da obra deste homem - simplesmente não é interessante. Parto desde já para os factos curiosos que me trouxeram aqui.

Levanta-se finalmente, dando de seguida alguns passos em círculo no centro do ringue.

Jorge Gante: Se ainda não conseguem detectar nenhuma ligação, eu elucido-vos. O poema que eu citei inicialmente pressupõe-se por si só que seja uma louvação do poeta às ilhas do seu orgulho... Mas não. Refere-se a Vila do Conde, onde nas palavras do próprio poeta e também nas dos críticos da época foi o melhor período da sua vida e da sua obra.

Gante aproxima-se da imagem a passos lentos, ficando apenas visível o seu busto por fim. O seu sorriso permanece.

Jorge Gante: Já notam alguma ligação a outra identidade tão próxima de nós? Eu diria que se não soubesse que estava a falar dum poeta, pensaria que estava a falar por exemplo de... Henrique Coelho?, ironicamente ou não meu adversário na próxima segunda-feira aqui neste mesmo ringue, nas semi-finais do Master of the Mat. E porquê?

Abre os braços, anunciando a resposta como obvia.

Jorge Gante: Ambos açorianos orgulhosos das suas ilhas, gritantes e defensores da cultura do seu povo como se fosse uma crença, necessitaram de o abandonar para fazerem algo de relevante nas suas vocações, para provarem algo ao mundo exterior, como se a sociedade e cultura açoriana não fosse suficiente. Factos.

O lutador retrocede na diagonal até um dos cantos do ringue, e volta a sentar-se de pernas cruzadas.

Jorge Gante: Tal como já referi anteriormente, Antero de Quental atravessou o melhor período da sua carreira habitando em Vila do Conde. Henrique Coelho, como sabem, atravessou o melhor período da sua carreira ao serviço da Vanguarda da Luta Livre onde foi Campeão da Vanguarda e Campeão Nacional, uma federação que era sediada... em Lisboa. Factos que reforçam absolutamente o que eu afirmei: afinal os açorianos orgulhosos precisaram do Continente para sequer alguém imaginar que eles existiam ou eram açorianos. E não hesitaram em virar as costas às suas ilhas, ao seu povo, à primeira oportunidade que tiveram. Prova disso é que Henrique Coelho o voltou a fazer com a ingressão na UWL!

Gante bate palmas irónicas e prolongadas, enquanto se ri.

Jorge Gante: Não será tamanha contradição a prova que este orgulho açoriano é única e exclusivamente falacioso? É única e exclusivamente uma estratégia de marketing do pobre e eterno mid-carder?

Coloca a mão na boca com um ar desconfiado, descaradamente num trave satírico.

Jorge Gante: Mas, no entanto, há ainda factos por revelar, e confesso que são para mim os factos mais preocupantes de todos. As mentes mais sensíveis que desliguem o vídeo a partir daqui... Isto é TV-14.

Faz uma pausa, inspirando-se para revelar as suas informações finais. A sátira sobrevive ainda no rosto de Gante.

Jorge Gante: Antero de Quental, depois de ter passado a vida inteira a virar as costas às suas queridas ilhas, decide por fim voltar à sua velha terra, aos Açores, para... se suicidar e tornar-se um símbolo eterno do seu povo. E sou o mais sincero possível quando digo que espero que Henrique Coelho não vá tão longe - e com longe não me refiro aos Açores mas sim ao suicídio - quando cair aos pés de Jorge Gante na segunda-feira e vir as suas ambições de se tornar Campeão Undisputed desaparecerem como desapareceu a vida de Antero naquela linda noite no Campo de São Francisco. Não é justificável, de forma alguma.

Apoiado nas cordas do ringue volta a levantar-se e a imagem foca agora apenas o rosto de Gante.

Jorge Gante: Não interpretem mal as minhas palavras. Eu não quero de todo que o Henrique Coelho acabe como o pobre Antero, sentado num banco de jardim algures nos Açores à espera que alguém desse pela morte dele como passou a vida inteira aqui no Continente à espera que dessem pela vida. Eu até gosto do meu brassad Coelho. E é por isso que no meio deste melodrama todo o que me descansa é saber que ele terá uma hora a mais do que todos nós para digerir a sua derrota.

A imagem faz fade-out conforme aproxima o olhar de Gante.

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