O início da caçada

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O início da caçada

Mensagem por Kid em Sab 10 Jan 2015, 14:34

Em casa dos Albuquerque, a meio de uma tarde de Sábado, fazia-se sentir um silêncio harmonioso que condizia com o luxo do edifício. Na sala de estar, espaço onde predomina o branco das paredes, das cortinas e das toalhas de renda que cobrem as mesinhas, saltam-nos à vista os vários adereços que compõem a decoração. O Chão também estava decorado com tijoleira branca e estava tão limpo que podíamos ver o nosso reflexo. Santos de marfim, retratos, e outros pequenos adereços vivem ao lado de uma floresta de tulipas amarelas. Uma vela iluminava e aquecia Jesus Cristo, dando-nos a entender que o catolicismo faz parte da vida desta família. Assim como Jesus Cristo, grande parte dos adereços da sala eram de ouro e reluziam, saltando-nos à vista. Apesar do frio que se faz sentir neste Inverno, este espaço era quente graças ao termoventilador, contribuindo para a harmonia da casa.

No meio deste silêncio fazia-se ouvir o ruído de uma televisão. À sua frente, sentada num sofá espaçoso e cheio de almofadas, encontrava-se a Dona Albuquerque. Vestida com um vestido de seda branco com painéis às flores e uma permanente no cabelo, a senhora vai esfolheando uma revista e fazendo um zapping pela televisão enquanto se queixa da programação.


Dona Albuquerque: Tantos canais e não passa nada agradável. A televisão portuguesa está uma tristeza.

É no meio das lamentações da Dona Albuquerque que lá ao fundo, por uma porta do lado esquerdo, surge uma senhora de avental. Às suas mãos trazia uma chávena de chá quente que até fumegava.
A senhora pede licença e cuidadosamente entrega a chávena à sua patroa.


Empregada Alzira: Senhora, está aqui o seu chá de camomila.

Dona Albuquerque: Muito obrigada, Alzira.

A empregada pede uma vez mais licença e retira-se enquanto a sua patroa fica a saborear o chá na doçura da tarde de Inverno. Por entre os goles no seu chá de camomila, a senhora vai mudando de canal e volta a lamentar-se.

Dona Albuquerque: Isto é uma tristeza, quando uma pessoa está em casa ao fim-se-semana à tarde não passa nada de jeito na televisão para nos ajudar a distrair. Preciso mesmo de umas férias. Já sinto saudades de visitar Paris ou Londres.

Dá mais um gole no chá e muda uma vez mais de canal, parando na Sic Radical. E é neste exato momento que no canal temático da Sic passa um vídeo de promoção à nova companhia de wrestling, a UWL.

A senhora enquanto olha para a televisão, prepara-se para dar mais um gole no seu chá mas parou a meio da ação, sentindo uma presença. Devagar pousa a chávena no pires que tinha em cima das suas pernas e lentamente olha para trás. A contrastar com o luxuoso, esbranquiçado e harmonioso ambiente da sala, estava o seu filho Paulo Albuquerque vestido de com um casado de cabedal preto sem mangas, onde podemos ver as suas tatuagens, com uma postura estática e quase sombria.
O jovem tinha descido a escadaria que podíamos ver atrás do sofá, sem fazer qualquer barulho e parou ali fazendo com que a sua mãe apenas sentisse a sua presença mesmo sem ouvir os seus passos, quase como um fantasma. Fitou atentamente o vídeo de promoção da UWL que passou na televisão perante o olhar assustado da sua mãe.


Dona Albuquerque (com a voz tremida, surpreendida pela presença do seu filho): Então, o menino finalmente decidiu descer? Não quer comer alguma coisa?

Chaser estava tão concentrado na televisão que nem sequer reparou que a sua mãe estava ali e a falar para ele. A Dona Albuquerque ainda assustada, virou devagar a sua cabeça para perceber o que estava a passar na televisão e que captou a atenção do seu filho. Deixou que o vídeo acabasse e logo percebeu o que se passava na cabeça do seu único filho. Pousou a chávena em cima de uma mesinha e depressa se levantou.

Dona Albuquerque (atrapalhada): Só passam tolices na televisão. Porque é que o menino não pede à Alzira para lhe preparar alguma coisa para...

Chaser nem sequer ouviu as palavras da sua mãe. Mal acabou o vídeo, Paulo saiu disparado dali.

A senhora ainda correu para a porta para tentar impedir o seu filho, mas o passo apressado de Chaser foi demais para ela. Desconsolada e preocupada, levou a mão à testa e suspirou, temendo por aquilo que o seu filho fosse fazer.
Voltou para a sala e deixou-se cair no sofá como se fosse um peso morto, fechou os olhos e assim ficou durante alguns segundos enquanto pensava no seu filho. Recompõe a sua postura e, com a mão direita, pega no telemóvel que estava em cima da mesinha, ao lado da chávena que ela tinha pousado. Marca um número na sua lista telefónica e faz a chamada. Enquanto o telemóvel chama e ela espera que a pessoa do outro lado atenda, a senhora levanta-se, começa andar de um lado para o outro e leva a sua mão esquerda ao seu peito para sentir os seus batimentos cardíacos acelerados. Alguém atende…


Dona Albuquerque: Estou, querido? Temos um problema! É o nosso Paulo outra vez…
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Re: O início da caçada

Mensagem por Kid em Qui 15 Jan 2015, 20:00

Passam poucos minutos das 22h, Chaser chegou a casa à coisa de dez minutos com a mesma expressão determinada com que saiu de casa. O anúncio da UWL que passou na televisão não o deixou indiferente, parecia que estava ali uma oportunidade de preencher um vazio que havia na sua vida.
Chegado a casa, dirigiu-se de imediato para o seu quarto, fechou a porta e apagou as luzes… não se vê nada…

Acende-se a luz de um ecrã. Era o seu computador. As únicas coisas que ficamos a ver é o ecrã do computador e o reflexo da luz na cara de Chaser. Este decidiu não esperar pela sua estreia na UWL para começar a derrubar adversários. Coloca um fones nos ouvidos e decide jogar um FPS. Não é que ele seja um grande fã de jogos, mas sempre dá para passar o tempo. Tempo esse que seria usado para fazer nada ou fugir de casa.

E o jogo até está a correr bem. Sabem aquele gosto que nos corre pelas veias quando conseguimos um “headshot”? Ou aquela raiva quando somos nós a levar? Bem, o Chaser não sabe. Ele só quer ser o vencedor. Chegar ao topo e ter a certeza que as pessoas lhe reconhecem o seu valor.

Ele pode não sentir raiva por ter levado com um tiro na cabeça, mas não te vai deixar a ficar a rir da sua desgraça. Na próxima jogada ele vai-te procurar e silenciosamente vai aparecer pela calada, tira as medidas, faz a mira na tua cabeça e…

“BAAAAAAM!”

A porta do quarto abre! A luz do exterior entra pela porta e ilumina toda a divisão. Podemos ver um quarto todo desarrumado, a cama por fazer, objetos espalhos pelo chão, posters na parede…
Chaser cerra os olhos devido ao impacto da luz e a única coisa que vê é a silhueta de uma pessoa. Essa pessoa carrega no interruptor para acender a luz e podemos ver que era um homem por volta dos cinquenta/sessenta anos, franzino e com uns óculos na cara. Podíamos ver, graças à expressão da sua cara, que estava zangado e nervoso. Ele aproxima-se de Chaser e tira-lhe os fones dos ouvidos.


???: Olha para este quarto! Nem sequer o teu próprio quarto arrumas?! Será que a única coisa que tu sabes fazer é tentar tramar o teu próprio pai?!

Este senhor era o pai de Chaser. Um empresário de sucesso casado com uma senhora do “jet set” e que juntos tiveram um filho, vivendo uma vida de luxo e bem abonada. Não esperavam eles que o seu filho vivesse para manchar a sua imagem diante dos media, dos seus sócios ou dos seus amigos.

Sr. Albuquerque: Que ideia foi essa de entrares numa companhia de wrestling?! Qual é a tua ideia?!

Chaser não esboça qualquer reação enquanto ouve as palavras de raiva do seu pai.

Sr. Albuquerque: Imagina só quando os cidadãos do concelho souberam disto! A minha candidatura à presidência da câmara está em sério risco! Vou perder apoiantes e patrocinadores porque o meu filho idiota decidiu juntar-se a uma companhia que tenta obter prazer através da violência! A imagem da minha empresa também ficará manchada!

O senhor começa a andar às voltas pelo quarto, visivelmente nervoso. Chaser apenas relaxa na cadeira em que está sentado e continua a ouvir as palavras do seu pai.

Sr. Albuquerque: Eu não percebo porque fazes isto! Nós demos-te tudo, não te falta nada! Não compreendo porque é que as únicas coisas que tu fazes é arranjar formas de me humilhares a mim e à tua mãe! Eu não suporto as tuas companhias, eu não suporto as tuas tatuagens, eu não suporto a tua postura, pareces um criminoso! Podias pelo menos fingir para as televisões e para as revistas que és um rapaz feliz e que nós somos os melhores pais do mundo. Mas decides fazer o contrário. Já não aguento mais isto!

O senhor Albuquerque desta vez dirige-se diretamente para o seu filho e confronta-o.

Sr. Albuquerque: Onde é que tu queres chegar com isto?! Nós já te deixamos andar com aqueles marginais, já aceitamos que não queres seguir os estudos! O que queres mais?! Diz-me o que queres que eu compro! Apenas não entres nessa companhia de wrestling! Vais-me fazer estar associado a um negócio tão vil como o wrestling, vais-me fazer estar associado à violência! Como é que as pessoas vão acreditar num presidente que mete o seu filho a combater para entreter uma plateia?! A minha oposição vai-me associar a um imperador malvado e sem escrúpulos! Os meus negócios podem ir pelo cano abaixo, não percebes isso?! É isto que tu queres?!

Chaser não dá qualquer resposta ao seu pai. O senhor olha olhos-nos-olhos para o seu filho tentando que ele fale alguma coisa mas não obtém sucesso. Ele então decide afastar-se e virar costas.

Sr. Albuquerque (falando agora num tom calmo): Se é assim que tu queres, não penses que vai ser fácil. Vais passar muita dor no ringue e fora dele. Eu próprio vou-me certificar disso. Pode ser que os teus amiguinhos marginais e a tua namoradinha também paguem a fatura pelas tuas decisões ridículas…

Chaser levanta-se deste momento da cadeira e confronta o seu pai, deixando-o intimidado pelo seu porte físico impressionante.

Sr. Albuquerque: Ok… desejo-te sorte na tua carreira como lutador. Pode ser que daqui a uns tempos acabes no meu ombro a chorar… Mas fica sabendo que eu vou estar aqui para ti. Vou certificar-me de que quando falhares no wrestling, eu vou-te acolher e dar-te uma nova oportunidade e todo o mundo ficará a saber que eu sou um pai exemplar. Quando isso acontecer, acabo como presidente da República.

O Albuquerque mais velho afasta-se, apaga as luzes e antes de fechar a porta deseja “boa noite” em tom arrogante para o seu filho, que ainda estava de pé sem esboçar reação alguma. Quando a porta é fechada todo o quarto afundou-se na escuridão onde apenas se podia ver um pequeno brilho no olhar de Chaser.

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