E tu, Fernando, o que farias?

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E tu, Fernando, o que farias?

Mensagem por Shotgun em Sex 16 Jan 2015, 17:37

O cenário é escuro nesta noite de quinta-feira. Edward Hosking vai andando pela baixa de Lisboa, mais propriamente no Chiado. O inglês vai caminhando de lentamente, saboreando o momento, apesar do frio que se faz sentir na capital. Eis que passa pela famosa estátua de Fernando Pessoa, enquanto vai pensando baixo para os seus botões. Decide então aproximar-se da obra, sentando-se junto dela e falando à figura do icónico escritor português.

Edward Hosking (sussurrando): O que farias tu, Pessoa? O que fariam os teus heterónimos? Pergunta-lhes. Custa-me pensar neste momento, por tão poucas que sejam as opções. A competição não é propriamente luxuosa. Tempos difíceis.

Alguns jovens fanfarrões passavam visivelmente alcoolizados pela cena e começaram a rir-se do facto de Hosking se dirigir a uma estátua. Todos menos um, o mais baixo e presumivelmente mais jovem, que reconheceu o inglês e tentou, entre os restantes, acelerar o passo. Estava notoriamente em alerta já que devido à pouca, mas suficiente iluminação, reconheceu o lutador.

Jovem 1 (entre dentes, com a mão na boca e tentado disfarçar o sorriso): Ei ó manos, calem-se lá! Aquele é o tipo que aparece na Radical... o Hosking ou lá como é que se chama. Acho que o gajo dá-lhe tótil, foda-se!

Um dos rapazes que se encontrava com ele aumentou a intensidade do riso, gozando e empurrando o seu amigo à laia de arrogante. Responde logo de seguida com um tom presunçoso e bastante audível, o qual Hosking captou no momento.

Jovem 2: És mesmo paneleiro, já tens idade de saber que aquela treta é falsa, eles nem se magoam! Não queres beber sequer um gole de cerveja, ainda dormes com a tua mãe e acreditas que isso do wrestling é verdadeiro... belo conas que tu 'tás! Às tantas nem é esse tipo, deve ser um bêbado qualquer. Olha lá ó mano... 'TÁS TODO FODIDO!

Hosking não consegue de ouvir estas frases, especialmente a última que foi obviamente dirigida a ele. Levanta-se rapidamente, fazendo sentir os seu quase metro e noventa e mais de cem quilos. Despede-se de Pessoa e aproxima-se dos rapazes que levantam uma garrafa de bebida em forma de defesa. Os mesmos recuam e insultam-no, enquanto Edward se aproxima deles e sinaliza que não irá magoar ninguém. Dirigindo-se ao mais jovem, faz-lhe uma pergunta.

Edward: Diz-me, miúdo. Quem é que eu devo escolher para lutar contra o Gante no Kerosene de segunda-feira? Estou com dúvidas e este tipo morto não ajuda em nada. Não vejo nada. O plantel é tão vazio. Não tem ninguém que se enquadre naquilo que eu pretendo.

Os outros riem-se, gozando com o inglês e com o seu amigo que estava a pensar em eventuais adversários para Jorge Gante. Não demorou muito, visto que o mesmo rapaz respondeu quase de forma imediata tal era o teu entusiasmo.

Jovem 1: Eu escolhia, err... o Cheryshenko, o russo! Eu acho que o Gante estaria 'tava fodido contra ele. Mas eu acho que ele está no cartaz. Hmmm... quem é que você está a pensar escolher? Não sei se devia perguntar, desculpe lá...

Os outros, extremamente embriagados, continuam a rir consistentemente e a insultar o amigo pelo seu gosto pelo wrestling e resposta à questão do inglês que parece pouco conformado com essa resposta.

Edward: É pena que sejas tão mau a dar palpites, puto. Mesmo mau. E acalma esses trogloditas que ainda caem ao rio. Na realidade, não os acalmes. A propósito, tenho que dizer que — aproximando-se dos rapazes e segurando-lhes a garrafa — isso é plástico, meu grande idiota. Não podes fazer nada com isso.

O inglês toma a garrafa à força e pontapeia-a para longe enquanto os jovens se revoltam, sem saber o que fazer neste momento de tensão. Sem suar, Hosking ri-se cinicamente para os miúdos enquanto enfia as mãos nos bolsos e passa pelo meio deles. Em sinal de cobardia estes evitam-no, dando-lhe passagem.

Edward (baixinho, enquanto passava entre eles): Estão ali três pessoas. Eu tenho cadastro limpo e assim quero continuar. Não me façam mudar de ideias, moços. E tu; — apontando para o mais novo — espero ver-te nos próximo eventos para assistires a primeira mão à minha glorificação como maior cara desta companhia. Como se isso fosse difícil — diz Hosking nesta última frase, sussurando.

A garrafa a movimentar-se à força do vento é o último som a ouvir-se, com os jovens silenciosos e desconfiados enquanto o inglês acende um cigarro já relativamente longe deles. O mesmo só fuma em situações drásticas, onde necessita de inspiração. Com os punhos lascados, fruto dos seus últimos treinos, o britânico enfia a mão esquerda no bolso e continua a caminhar. Vai pensando alto.

Edward: Alguém. Alguém que atingiria aqueles miúdos sem escrúpulos se lhe desse o clique. Alguém que não sabe o que faz e não se sabe controlar quando aquilo estala. Sem medo de tomar riscos e que, mesmo não sendo, atue como importante. Quem me dera que...

Eis que, repentinamente, o inglês ri-se e atira o cigarro, quase por inteiro, para o chão.

Edward: Porque é que não pensei nisto. Dar de comer ao abutre.

O mesmo continua a caminho de casa nesta noite fria, parecendo obter já uma resposta e, assim, um adversário para Jorge Gante. Quando olha para trás, vê os miúdos com que se tinha cruzado há momentos junto à estátua de Fernando Pessoa, dirigindo-lhe palavras e tirando fotografias com o mesmo.
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Shotgun Eddy

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