Ser Soviético

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Ser Soviético

Mensagem por Sombra em Sab 17 Jan 2015, 20:42

A imagem surge no já habitual ambiente frequentado por Andrey Cheryshenko... A imagem é vaga vendo apenas uma sombra, onde aparentemente se vê um indivíduo imponente fisicamente a treinar striking num saco de boxe. Pode-se ouvir o eco das gotas do seu suor e do seu trabalho a cair no chão. Os seus gritos a cada murro no saco ecoam por todo o ginásio.

A câmera, continua apenas a focar a parede branca onde se vê todo este processo de treino. É obviamente Andrey Cheryshenko a fazer a sua elaborada e exigente rotina de treino. À medida que a imagem permanece no mesmo sítio e com a característica interessante de ser algo slow motion... Ouve-se lentamente uma pequena voz, sendo que a mesma não é perceptível em relação à sua origem... No entanto é apenas perceptível que a voz é feminina e tem um sotaque russo. A sua narração começa, ouvindo-se de fundo, os sons e os gritos de Cheryshenko efectuando o seu treino...


Ginásio e treino. O propósito da sua vida é a superação. A sua meta é o topo da montanha na Ultimate Wrestling League. A mentalidade russa é assim. Objectiva. Competitiva. A capacidade de sacrifício que nenhum outro povo tem. As palavras ficam para os estrangeiros. As acções e a vitória final aos Russos pertence.

Permitam-me relembrar-vos uma pequena história na Segunda Guerra Mundial...

Estalinegrado. 1942.

A Alemanha de Adolf Hitler percorria a Europa, vencendo e vergando o mundo ocidental sem ninguém que lhe pudesse fazer frente. Em meados de 1942, Hitler e o seu Terceiro Reich chegaram a uma cidade berço e símbolo do comunismo e da União Soviética sendo baptizada com o nome de um dos seus mais audazes e ferozes líderes: Joseph Stalin. Estalinegrado. O Führer fez desta batalha uma questão pessoal com Stalin, enviando para lá os seus melhores soldados e quadros das suas SS e Wehrmacht.

A batalha foi feroz. Os alemães, habituados a ter tudo o que há de melhor e que o dinheiro pode comprar desde os seus pequenos luxos ás suas abastadas e imponentes fardas, julgaram derrubar o feroz e resistente povo soviético após meses e meses de batalha. A Alemanha falou. A Alemanha vangloriou-se. O povo russo em silêncio continuou a trabalhar. Após meses e meses de vitórias alemãs... O inverno chegou.

Temperaturas horríveis. Um dia com vinte graus negativos era um dia de "calor". Os alemães começaram a sucumbir ao frio... Deixaram de falar. Retiraram para as suas tendas ou luxuosos comboios vindos de todos os pontos do Reich. O povo soviético continuou silencioso, nas ruas, vivendo do frio, fazendo do inferno a sua casa. Sem alimentos, roupas para o frio, casas quentes... Tudo tinha sido destruído. Porém, o seu silêncio, a sua resistência e sua vontade de vencer prevaleceu.

A busca pela superação, o silêncio, o trabalho, a resistência e o heroísmo soviéticos foram o contrapeso ao armamento, ao luxo, ao ócio e à futilidade. As acções valem mais do que os "aspectos" ou as palavras. Assim sendo, naturalmente em 1943, a União Soviética e o seu Exército Vermelho, pela sua gloriosa vontade de vencer e a sua incomparável resistência e capacidade de sacrifício vergaram a Adolf Hitler a sua primeira derrota na guerra mundial, que viria a ser um ponto de viragem na mesma.

Perguntam-se vocês agora... O que tem uma história tão distante a ver com Andrey Cheryshenko, um Wrestler da Ultimate Wrestling League? Pois bem, posso dizer-vos que tudo. Eu acompanhei Cheryshenko durante praticamente toda a sua vida... Vi Andrey ser invicto nas Forças Armadas e no glorioso Exército Vermelho. Vi-o ser invicto nas Mixed Matial Arts. Vi a mágoa e a dor silenciosa dele com o seu país ser saqueado pelo capitalismo. Vejo o seu ardente desejo de ser o melhor. Vi praticamente todo o percurso dele na sua vida... Sou a única pessoa que conhece, sou a única pessoa que sabe do que ele é capaz, do pior ao melhor.

Tal como a história que vos contei... Ele é um típico Soviético. A ele não lhe compete falar. Ele é um soldado. A ele compete-lhe a sua missão. A ele não lhe compete a distracção. A ele compete-lhe a superação. A ele não lhe compete a derrota. O propósito da sua vida é a vitória. Portugal e portugueses não podem compreender o que é ser Soviético. Pessoas como James Brandão. Pessoas como Dash.

Tenho estado atenta ao que têm dito dele. Andrey no entanto, não quer saber o que têm para dizer sobre ele. Mas... como disse. Vocês jamais poderão entender. Criticam o silêncio de Andrey mas não entendem que o seu silêncio é forjado de sangue, suor, lágrimas e superação. Enquanto ele está em silêncio a treinar para se manter invicto como sempre foi em toda a sua carreira vocês falam.

O português, tal como os alemães e a pequena história que mencionei tem prazer nas palavras e nas aparências. Os soviéticos têm prazer na superação e no trabalho. Será de admirar a diferença no mundo que Portugal e a União Soviética tiveram? Não... Ela é imponente. Tal como a diferença entre Andrey e James Brandão ou Dash.

Andrey foi um militar, serviu com distinção o seu país. Andrey é um atleta, competiu e praticou quase todo o tipo de modalidades de combate existentes. Andrey é uma máquina que nunca foi nem nunca poderá ser derrotada em qualquer tipo de modalidade de combate. Quem é Dash ou James Brandão? O que fizeram eles sequer de semelhante em relação a Andrey?

Eu posso-vos responder. Nada. Voltemos então ás palavras. Foram precisamente as palavras que colocaram James Brandão nesta situação... A sua falta de compromisso para consigo próprio levam-no a fugir e a esconder as suas debilidades como atleta e wrestler nas palavras. É como que um pequeno cão ferido que apenas ladra mas que nada faz. No entanto, ele é vítima do seu próprio feitiço. As suas palavras levaram-no para o campo da sua fraqueza... A competição. James Brandão venceu por sorte um atleta ultrapassado e extremamente mediano... falo-vos de Delmar Bento. Um mercenário de origens africanas que prefere beber vinho de que ir para o ginásio.

Será isso crédito para Brandão? Vencer por mero acaso um paupérrimo e banal atleta desses? Evidentemente que não. Estará ele pronto para lídar com uma máquina de combate ávido de vitória e temerário de superação? Jamais. No entanto, este ainda não percebeu isso. Os dias aproximam-se, o relógio a cada segundo que passa sela o seu destino. Brandão continua a falar. Quando ele se encontrar com o Bolshevik Andrey Cheryshenko... irá perder as suas palavras, vergado pela derrota irá colidar com a realidade... de que as suas palavras não têm sustento nas suas acções.

Falemos de Dash. Novamente uma pessoa que jamais poderá entender o que é ser Soviético. Ele, tal como James Brandão tem tudo em comum. Ou praticamente. As palavras. Engraçado será dizer-vos que Dash perdeu com Ricardinho, um adepto de futebol que passa mais tempo no seu sofá a ver o Sporting e a beber cerveja do que a cuidar do seu corpo. É este o tipo de competição que Cheryshenko pretende? Não. Mas assim será. Nós, soviéticos, nós o grande povo russo, acima de tudo somos pacientes. Tal como a pequena história que vos contei, nós mantemo-nos em silêncio e aguardamos... Aguardamos calmamente pela nossa oportunidade enquanto fazemos do inferno a nossa casa... Aguardamos calmamente enquanto a nossa dor e sacrifício passa a ser chamada de mãe por nós.

Aguardamos enquanto a vitória final chega. E a altura chegará. Infelizmente para James Brandão a sua altura de ser confrontado com a realidade será dia 19... E a de Dash será dia 25. Porque Andrey Cheryshenko, após dizimar James Brandão, algo que será inevitável e que irá acontecer sem qualquer tipo de dúvida por tudo o que vos contei... Aceitará o desafio de Dash no Battlecry. E eles no fim de tudo isto terão algo em comum, novamente... Será a última vez que alguém irá falar deles. Será a última vez que irão estar no caminho Bolshevik, do invicto e único verdadeiro atleta desta federação... Andrey Cheryshenko."

A imagem muda de ângulo lentamente e vemos Andrey Cheryshenko que afinal tem dois sacos de boxe, desferindo golpes num com a mão esquerda e desferindo golpes no outro com a mão direita de forma alternada. Podemos constatar que as suas mãos estão enfaixadas, no entanto os adesivos que eram brancos, estão vermelhos... ensaguentados. Cheryshenko continua a treinar com os seus punhos a terem feridas, dado que está há várias horas sem parar a fazer o seu treino.

Vemos o ar intenso de Cheryshenko e o suor a cair e a pingar pelo seu rosto. O seu ar é gélido e focado. A câmera aproxima-se e vê-se algo nos dois sacos de boxe. Um tem uma fotografia de James Brandão lá presa e o outro tem uma fotografia de Dash presa... Vemos alguém encapuçado a ir levar uma garrafa de água ao lutador Russo enquanto a imagem desvanece para a escuridão.
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