Gaiato

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Gaiato

Mensagem por Shotgun em Dom 18 Jan 2015, 15:39

Sexta-feira à tarde e Edward Hosking cumpria mais uma das suas obrigações contratuais. Desta feita, o inglês deslocava-se à casa do gaiato de Lisboa onde, de acordo com os promotores da federação, iria inspirar jovens sem grandes perspetivas para o futuro. Certamente preferia estar a fazer algo útil com o seu tempo, mas se há algo que aprendeu em Portugal é que se deve tirar o melhor de coisas que à primeira vista pareçam más na sua totalidade. E, apesar de resmungar durante todo o caminho, decidiu então tirar o melhor deste dia e desta experiência diferente. Ao ser acompanhado até à porta pelo motorista designado pela companhia, o inglês vê a porta abrir-se com cerca de uma dezena de crianças a espreitar nas saias de uma mulher, presumivelmente coordenadora.

Coordenadora: Bem-vindo à casa do gaiato de Lisboa, como está?

Ao inclinar-se para beijar o inglês no rosto um par de vezes, sinal de educação em Portugal, o lutador inclina a cabeça no sentido oposto e, com uma expressão de repulsa, estende-lhe a mão para a cumprimentar. Ela, visivelmente constrangida, faz o mesmo e prossegue assim o diálogo com o visitante ao mesmo tempo que sinaliza a Edward para entrar no edifício.

Coordenadora: Quando me abordaram por telefonema, esqueci-me de perguntar aos senhores da federação se falava português fluente visto ser estrangeiro. Quer que recorra ao inglês enquanto lhe mostro a casa e as crianças?

O inglês entra dentro de casa para ouvir a música Chandelier tocar no rádio que está em cima duma pequena mesa de madeira, no corredor de entrada. Visivelmente enfadado, vira a cara por momentos, fecha os olhos e dá um longo suspiro. Vira-se em direção à mulher e lança um tímido sorriso. Logicamente forçado, claro está.

Edward Hosking: De forma alguma. Há muito que o idioma já não é problema para mim. Da minha parte não há problema. Mas se quiser falar em inglês, por mim tanto se me dá como se me dê.

Algo surpreendida com a forma rude como o inglês respondeu à sua pergunta, a expressão facial da senhora altera-se um pouco mas o lutador dá rapidamente a volta à situação com uma gargalhada, colocando-lhe a mão no ombro em sinal de intimidade.

Edward Hosking: Estou a brincar consigo. Faz parte da personagem que interpreto, tenha calma.

Não sabendo o quão aborrecido realmente estava, a mulher acaba por animar o clima e decide tomar a iniciativa para mostrar a casa ao finalista do Masters of the Mat.

Coordenadora: Ande lá, vamos subir. Neste andar há muito pouco para ver. Meninos, vamos!

A chavalada sobe rapidamente as escadas, ultrapassando Edward pelo caminho. Os mesmos vão subindo as escadas a correr, informando aos berros que há visita. Chegando ao andar de cima, o inglês começa a olhar à sua volta e a maior parte dos miúdos estão escondidos na maior sala: atrás de sofás, televisões, estantes ou mesmo baús. A maior parte dos jovens têm idades compreendidas entre os 6 e os 12 anos e como raramente recebem visitantes são, portanto, envergonhados.

Coordenadora: Vamos lá meninos, deixem-se de coisas! Este é o Edward que viram na televisão na última segunda-feira! Digam todos olá ao nosso convidado!

Tímidos, lá os miúdos dão as boas-vindas ao inglês.

Miúdos (numa só vez): Olá Edward!

Sorrindo cinicamente por breves segundos, o inglês acaba por captar a sua atenção na coordenadora do espaço que acaba por dar pela falta de um dos rapazes da casa. Ele não tinha cumprimentado Edward e presumivelmente estaria no seu quarto.

Coordenadora: Meninos, onde está o Alexandre?

Os rapazes olham uns para os outros, desconfiados, sem obter uma resposta concreta. Já algo preocupada, a mulher começa a andar rapidamente em relação aos quartos.

Coordenadora: Desculpe-me Edward, eu disse-lhes para ficarem todos aqui mas o Alexandre não aparece. Fique aqui com estes traquinas que eu vou buscá-lo. Ele é muito especial, certamente vai gostar muito de o conhecer.

Sorriso cínico do inglês que vira a cara.

Edward Hosking: Decerto...

Passaram-se uns cinco minutos. Os miúdos perderam a vergonha e começaram a falar com Edward, enquanto este ia-lhes respondendo às perguntas da forma mais curta e objetiva possível. Se não estava entusiasmado em estar ali, certamente acabou por ficar intrigado com esta figura que estava doente ou que simplesmente tinha saído de casa.

Coordenadora (entre dentes): Anda lá Alex...

Ambos passam a esquina e lá está Alex com o nariz vermelho, está com gripe. O mesmo está com um robe com todas as cores do arco-íris e umas pantufas cor de rosa com umas orelhas de coelho. Ia andando vagarosamente, bocejando, com o cabelo todo despenteado. Quase que arrastado, chega a um dos sofás na sala e capota de cara para baixo.

Coordenadora: Então, o que se diz ao nosso convidado!?

Com a cabeça enterrada no sofá, não se ouve mais do que um pequeno gemido de Alexandre...

Edward Hosking: Ele tem algum problema que deva saber? Alguma condição especial? Tem imensas semelhantes com um colega de trabalho que conheci há pouco tempo. Más cá entre nós, eu penso que esse tem mesmo alguma condição mental especial. Anda sempre acompanhado pela sua treinadora e tem umas tendências estranhas que também identifiquei no Alex. Sabe, ele é um miúdo bastante especial. Tome bem conta dele.

O miúdo não consegue deixar de ouvir a conversa e espreita sorrateiramente por entre a almofada do sofá. De seguida, quando se senta na beira do sofá, pronto a levantar-se, dá um espirro que o projeta para trás com um impacto surpreendente.

Coordenadora: Ele é cá uma personagem... mas é perfeitamente normal. Tem é este jeito muito particular de ser. É sempre uma alegria tê-lo por cá porque nos faz rir imenso. Mas ultimamente tem tido alguns problemas: está a crescer, é normal que perceba melhor onde está e o porquê. Quer ter as suas questões levadas a sério. Ele está cá antes de eu começar a trabalhar aqui.

Alex (bocejando): Aaaah…Fodaaaa-seee.

Ultrajada e visivelmente corada, a mulher ralha com Alexandre.

Edward Hosking: Deixe estar. Eu sei como são miúdos. Queria dar uma palavra aos miúdos, tudo bem? Não gostava mesmo nada de sair daqui sem passar a mensagem que quero vincar.

Coordenadora: Claro, é para isso que cá estamos. Sente-se ali. - apontando para o sofá com o ângulo mais favorável para ver todos os miúdos. Meninos, sentem-se todos no tapete! O nosso convidado Edward quer falar com vocês!

Os miúdos sentam-se no tapete, todos à exceção de Alex. Este fica deitado noutro sofá com a cara virada para o inglês.

Edward Hosking: Muito bem. Eu hoje vim aqui não por obrigação, mas sim por gosto. Privilegio a observação de realidades diferentes da minha, ou seja, queria muito viver como eram vocês e este espaço. Eu próprio não conheci o meu pai; saí de casa muito novo para perseguir as minhas ambições. Por muito que não tenham gostado do que viram de mim na televisão, garanto-vos que esta é a melhor forma de estar. Vocês são novos, compreendo que nesta altura é-vos difícil compreender determinadas situações. Mas nesta vida o controlo é a chave. Percebo que este local não seja o ideal para vos moldar enquanto pessoas porque têm pouco contacto com o exterior. Mas, e ouçam bem esta parte: tudo na vossa vida tem a ver com controlo. E segunda-feira, seja ele quem for, não vai passar. A vocês, desejo-vos todo o sucesso do mundo.

Palmas tímidas para o inglês, sendo que a maior parte dos miúdos não entendeu patavina do que o lutador acabou de dizer. Alex dá um espirro poderoso que o faz cair do sofá.
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Re: Gaiato

Mensagem por Fenomenal em Seg 19 Jan 2015, 01:58

Já anoiteceu. É agora hora de os rapazes dormirem na Casa do Gaiato em Lisboa. A coordenadora andava pelos corredores, espreitando para dentro dos vários quartos para confirmar se os miúdos estavam realmente a dormir.

Na sua mente ainda pairam os acontecimentos da última tarde, com a visita de Hosking à Casa. Visita essa que se desenrolou de uma forma muito diferente do que ela esperava. E é então que do nada se ouve um grito de criança pelos corredores.


“AAAAAAHHHHH!!! NÃO!!! OUTRA VEZ NÃÃÃO!!!”

A mulher começa a correr na direcção do berro. Chega à porta de onde lhe pareceu que ele veio e abre-a, deparando-se com um miúdo a chorar descontroladamente na sua cama – a cama que ficava mais perto da porta. A luz de presença da sua cabeceira está ligada.

O outro rapaz com que este dividia o quarto estava na cama ao fundo do quarto, aparentemente ainda a dormir, apesar do barulho. A mulher aproxima-se do rapaz que está a chorar, sentando-se ao seu lado.


Rapaz (a choramingar): Eu fiz outra vez! Fiz outra vez! Sou uma vergonha!

A coordenadora coloca o braço à volta do rapaz, tentando acalmá-lo.

Coordenadora (numa voz doce): Vá, tem calma, são coisas que acontecem…

Rapaz (ainda a choramingar, agora com um pouco de raiva): Não devia acontecer! Eu já sou um rapaz grande e isto já não me devia acontecer! Nem a bexiga controlo, que vergonha!

Coordenadora (com a mesma voz doce): Vá, Eduardo, não sejas tonto, tu ainda és um rapazinho. Diz-me, isto é por causa da conversa do nosso convidado de hoje?

Eduardo olha para a mulher com os olhos lacrimejantes.

Eduardo: Ele tem razão, nós temos que ter controlo sobre as nossas vidas, se não sabe-se lá o que nos pode acontecer!

Coordenadora (com convicção): Eduardo…a verdade é que nos vão sempre acontecer coisas que não conseguimos controlar. Não podemos controlar tudo, não é assim que a vida funciona.

Eduardo fica cabisbaixo, com um ar muito triste. Não exprime uma palavra.

Coordenadora (num tom muito terno, quase maternal): E nós já falámos antes sobre isto, Eduardo. Não é tua a culpa do teu pai te ter abandonado e à tua mãe. Aí não havia mesmo nada que tu pudesses fazer, sim?

Eduardo olha agora para a coordenadora e nada diz. A sua expressão mostra, no entanto, que não está totalmente convencido pelas palavras da mulher.

Coordenadora: Vá, vamos-te lavar…Eu já falo com alguém para te arranjar uns lençóis secos.

A coordenadora sai do quarto com o rapaz de mãos dadas e fecha a porta. E é no preciso momento em que a porta se fecha que o outro miúdo que dormia lá se senta na cama, como se fosse uma mola. É Alex, o rapaz engripado! Este deita a língua de fora na direcção da porta cerrada e logo de seguida cruza os braços.

Alex: É bem feita por teres a mania que és melhor do que os outros e por gozares comigo! Sim, eu posso não querer crescer, mas e depois, se ‘tou bem assim? No fundo também não passas de uma criança chorona!

O rapaz agarra o copo de água que estava na sua cabeceira e dá um grande golo no mesmo, acabando com a água. Fica com uma expressão de nojo na face depois de engolir a água.

Alex: Bleh, sabe a unhas!

O pequeno Alex dá um grande espirro, ficando com a cara cheia de ranhoca. Despreocupadamente, limpa-a à manga do pijama e volta a deitar-se com um sorriso no rosto.
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