Os mentirosos são sempre pródigos em juras

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Os mentirosos são sempre pródigos em juras

Mensagem por Shotgun em Ter 20 Jan 2015, 19:56


Escuridão. Ouve-se apenas o tema "Change" da banda Deftones como música de fundo. Repentinamente, luz. Edward Hosking liga uma lanterna, a qual aponta para a câmara que o foca num primeiro plano. Coloca-a na mesa e podemos ver a sua expressão serena enquanto balança na sua cadeira. Está com uma camisa azul, assim como um casaco negro. Há luz suficiente para ver o inglês na sua plenitude. Os seus lentos pestanejos vão mostrando toda a tranquilidade do mundo. Utiliza a mesa para o empurrar para a frente, olhando em direção à câmara e começando, logo a seguir, a discursar sobre o seu passado.

Edward Hosking: Olhando para trás é compreensível que pouco seja claro em relação ao que fiz de toda a minha vida. O meu nome e identidade vão sendo construídos à volta da Ultimate Wrestling League. Antes de Portugal e de me juntar a este meio, tudo relacionado com o meu nome está manchado de desfoque. Mas não para mim, como é claro. Controlando-os ou não, a vida requer sacrifícios de forma constante. Cabe-nos a nós jogar com eles da forma mais conveniente. Mas para quê cometer um sacrifício, entre aspas digo, que é perfeitamente evitável e desnecessário?

O finalista do Masters of the Mat abana negativamente a cabeça, enquanto fecha os olhos. Abrindo-os, afasta-se da câmara e tira um cigarro do bolso, o qual parte ao meio e atira para a escuridão.

Edward Hosking: Descansem. Seria fácil atirar a Jorge Gante os seus maus hábitos, mas esse não sou eu. Não sou esse tipo de herói. Porque, fumando ou não, é apenas uma opção e impossível de confundir com algo como sacrifícios. És isto porque fumas cigarros, ficas mais cego por cada um que metes à boca... não. Não interessa. Aqui não somos meninos. É insignificante. E quem sou eu para julgar alguém que faz algo que eu próprio fiz durante anos.

Hosking sorri de forma algo cínica, numa altura em que se apresenta de perfil para a câmara.

Edward Hosking: Contudo, há algo relevante que quero frisar. É que, durante a Vanguarda da Luta Livre, Jorge Gante estava a ser si próprio. Apesar de se libertar da morfina, um vício que entendo perfeitamente devido a uma lesão que ameaçou tomar consequências imensas, o senhor da Covilhã mostrou-se ao mundo, livre de dor, na antiga federação portuguesa. Não posso censurar alguém que se expõe desta forma crua e viril.

Vai discursando, parecendo impressionado com o seu adversário.

Edward Hosking: Durante esses meses procurou a glória das formas mais ousadas, mas audazes, possíveis: formando os Verno, vangloriando-se como se de um Deus se tratasse, e tirando anos de vida de Ricardo Soares. Alguém odiado, detestado por qualquer um. Mas eu compreendo estes fundamentalismos do meu adversário. O meu receio, Jorge, é que tenhas exposto demasiado sem conhecer o dia de amanhã e as circunstâncias nele incluídas.

O inglês, rival de Jorge Gante, mostra uma expressão de alguma confusão que rapidamente é substituída por um olhar que transmite confiança e clareza. Estica o braço e cerra o punho perto da câmara, com imensa força.

Edward Hosking: Essa versão incisiva, objetiva e controladora de Jorge Gante! Essa demonstração de poder como se da segunda vinda de Cristo se tratasse! E repara, Jorge. Durante o último Kerosene alguns dizem que que te ataquei à traição. Decerto não concordas com isso. Tu sabes porque o fiz. Dizem que te ataquei como um cobarde. Isso é ridículo e bem no fundo vais ovacionar o que direi de seguida. Porque, vês...

O lutador da Ultimate Wrestling League dá um violento murro na mesa, fazendo tremer a câmara e a lanterna inclusive. O inglês está fulo, mas rapidamente reconquista a sua postura e encosta-se nas costas da cadeira após ajeitar o cabelo.

Edward Hosking: O cobarde não sou eu, muito menos o traidor. Tu sim. — apontando para a câmara como esta fosse Gante — És tu o cobarde, o traidor e o impostor. Tudo isso e mais. Porque este Jorge Gante que atirei ao chão não passa disso mesmo, um impostor que não se pode considerar digno de se assemelhar de alguma forma a um ser superior. Não fiz mais nada do que restabelecer justiça e ordem porque lembra-te, Jorge: o lutador e possa poderosa que mostravas no passado podia, sim, comparar-se a algo desse género no seu próprio meio. Tomei a liberdade de te atingir e colocar novamente os teus pés na terra quando abriste os braços e fechaste os olhos. O que sempre fazes. Eu próprio não tenho esse tipo de crença, mas percebo que as massas o tratem [a Deus] como a maior peça de divindade que assolou as suas vidas. E tu, agora, não te podes comparar a uma figura tão relevante.

Hosking coça a testa, mostrando-se insatisfeito com esse gesto do português. Os seus olhos não mostram arrependimento pelas suas palavras, mas sim uma maior intensidade. Desencosta-se da cadeira, sentando-se agora na beira da mesma e inclinando-se em direção à câmara.

Edward Hosking: Numa outra nota, não consegui deixar de reparar que o teu tema de entrada, que tocava quando te fiz o favor de colocar os teus pés na terra, intitula-se de Drown. Afogar. Curioso. Escolhido a dedo, suponho. Porque Jorge Gante é de facto alguém a quem o oxigénio começa a faltar, fruto da ondulação e força do seu mar de mentiras e ilusões. Save me from myself, don't let me drown, diz ainda a música. Neste momento sou a última esperança para que isso não aconteça, para que não te afogues. Este Gante, versão UWL, é uma mentira fabrica a qual acredito que em alguns momentos até queiras abortar. No entanto...

O britânico tosse múltiplas vezes.

Edward Hosking: Ah foda-se, este clima português. No entanto, Jorge, já estás demasiado envolvido na mentira e pareces acreditar cada vez mais que esta é a realidade. A verdade é que este Jorge ama a sua Alexandra da mesma forma e terá certamente a mesma forma de ser a figura quase paternal que era para Diogo Lourenço e Félix nos Verno. Este Jorge quer voltar a ser poderoso, a ter toda a credibilidade do mundo. Mas mente a si próprio, perdendo-a. Porque essa figura que representavas, não há muito tempo, não está presa num cofre. Está bem dentro de ti, viva e a palpitar. Porém, estranhamente, fazes os outros acreditar no contrário.

A música que tocou durante todo o vídeo, após várias repetições, termina.

Edward Hosking: A verdade é que estou em ambas as saídas do caminho em que te encontras. Sou a tua última esperança para acabar com a mentira. Mas se quiseres consumar o caminho para o afogamento e auto-destruição também estarei lá. Como um velho. Um velho paciente. Porque, no domingo, és tu quem escolhe o teu próprio veneno.

O inglês pega na lanterna, apagando-a. Escuridão total.

Edward Hosking: Ambos os caminhos são traiçoeiros. Contêm surpresas que te podem partir ao meio a qualquer momento, a qualquer estalar de dedos. Algo maior que nós próprios.

No momento em que as luzes parecem acender-se, a imagem desvanece.[/i]
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Re: Os mentirosos são sempre pródigos em juras

Mensagem por Sabor Gerações em Sex 23 Jan 2015, 08:24

Cam On

A imagem inicia em movimentos bruscos, até que finalmente estabiliza e foca o rosto de Jorge Gante, numa perspectiva selfie, sendo apenas visível o seu busto com uma cama desfeita por trás.

O mesmo sorri parecendo dar as saudações aos espectadores.


Jorge Gante: Livres de escudos protectores estarão aqueles a quem é conhecido e reconhecido o seu passado. Não é uma nova nem tão pouco uma velha máxima de vida - é senso comum. Eu sou um deles, felizmente.

É agora visível uma expressão conformada no seu rosto, claramente em tom de gozo.

Jorge Gante: Aconteceu há duas semanas, quando um açoriano tentou atacar-me através dum vício passado meu, uma toxicodependência que eu próprio tornei pública no site da federação. E saberia que mais tarde ou mais cedo voltaria a acontecer com esta personagem caricata que é... Edward Hosking. Previsível, digamos.

O rosto conformado não é mais forçado, sorrindo expressivamente.

Jorge Gante: Talvez te considerasse um tipo mais inteligente do que isso, Edward, envolto nessa tuas obscuras personagens alternativas, que tanto orgulho tens em revelar, tentando vender o teu produto... Ah... Piada fácil! Antes que faças um vídeo badass em paródia à palavra "produto", refiro-me a ti e não a droga.

Solta algumas gargalhadas secas, rindo-se da própria piada sem vontade.

Jorge Gante: Mas continuando. Considerava-te um tipo mais inteligente porquê, deves estar a questionar-te a meia-luz com um rosto altamente cínico e baixo, sentado numa cadeira da madeira mais lascada que tiveres aí em casa... Porque se eu exponho o meu passado é porque não me envergonho dele. Porque se exponho o meu passado de borla, Edward, é porque ele não representa um ponto fraco para mim. E quanto ao teu, Edward?

Passa agora a sua mão livre - aquela que não está a segurar na câmera - pela queixo, em sinal de curiosidade.

Jorge Gante: Nas tuas próprias palavras, dizes que o teu passado está manchado ou desfoque, dificilmente associando-te a algo que não a Ultimate Wrestling League. E porquê, Edward? Representa ele um ponto fraco para ti? Falar da tua infância representa um fraco para ti? Falar da tua família e amigos representa um fraco para ti, Edward?! Ou envergonhas-te deles todos os dias em que encarnas uma nova personagem?!

Abana a cabeça, depreciativamente.

Jorge Gante: Nem tudo é mau: provaste ser um melhor dominador da tua língua materna - a língua inglesa - do que o teu tão infeliz compatriota e veneno da semana passada - o último Wickings, o que por si só é uma sorte tendo nós a certeza que não haverá mais nenhum - chegando ao ponto de dissecares a letra do meu tema de entrada. Dou-te os meus parabéns por isso, caro Edward. Nota vinte no exame de admissão a Cambridge. Mas...

Continua a abanar a cabeça negativamente.

Jorge Gante: Também nem tudo é bom: provaste ser um péssimo entendedor da língua portuguesa, o que explica muita coisa. Por exemplo a seguinte imagem que tem circulado na internet...

A imagem sofre então um break, passando directamente para o seguinte:

Spoiler:


Após vários segundos, regressa a imagem à gravação original com Gante a rir-se.

Jorge Gante: É só uma piada - facto -, e espero que te tenhas rido tanto como eu quando a vi. Mas explica uma série de coisas... Sabes, é que tu és essa espécie de Marcelo Rebelo de Sousa, tendo sempre um discurso aparentemente intelectual que ninguém entende a entregar a todos os assuntos e mais alguns. Mas há uma diferença, Edward... E lamento estar tantas vezes a chamar-te Edward, mas como sinto que és um mau entendedor, tenho esta necessidade de repetir muitas vezes o teu nome tão querido e amigável para sentir que me estás a ouvir com atenção, como se faz às crianças, sabes?

Mais gargalhadas, cada vez mais intensas e sentidas.

Jorge Gante: A diferença entre ti e o Marcelo Rebelo de Sousa é que de facto o Marcelo é um bom entendedor dos mais variados assuntos e tem algo a dizer sobre tudo. Mas tu, Edward? És apenas um tipo que mascara a sua falta de algo para dizer com palavras que ninguém entende, o que leva as pessoas a não poderem contestar o que dizes. Mas como tipo inteligente que eu acho que és, Edward, deverias saber que também eu sou um tipo inteligente.

As gargalhadas são agora substituídas por uma expressão séria, intensa.

Jorge Gante: E talvez seja isso que tu não entendes. É que afirmas, quase jurando a um deus em que suponho que tu não acredites e eu muito menos que... Eu mudei, que sou uma "versão UWL". E se bem me lembro, sempre que me questionaram e eu próprio já o disse em público, continuo a ser o mesmo... Sou o mesmo que fundei os Verno e o mesmo que fiz a vida do Ricardo Soares num inferno. Não lamento nada, Edward, sou o mesmo filho da mãe. Se me aplaudem agora em vez de me apuparem, Edward?

Abana a cabeça novamente num sentido negativo, mas agora talvez por não entender a dúvida proposta.

Jorge Gante: Foi porque entenderam que foi tudo por eles, embora não vissem. Foi porque entenderam que os meus motivos justificavam os meus actos. As minhas intenções, Edward, foram sempre que o poder não caísse nas mãos erradas como as mãos do Ricardo Soares, como as mãos do Vinicius Nunes, como as mãos do Bangalter...

O seu rosto pára e os olhos fixam intensamente a câmera.

Jorge Gante: E agora, nas mãos de alguém como tu, Edward... Ou devo chamar-te outra coisa qualquer porque a esta altura já estás a encarnar outro merdas?

Os olhos quase se derretem em lágrimas, voltando Gante a desmanchar-se e a rir.

Jorge Gante: Ao menos davas nomes aos tipos, que assim um gajo não sabe como há de chamar-te... Olha, o Camaleão que era da Vanguarda era muito parecido contigo, também se divertia a encarnar personagens e tudo mais... Era uma palhaçada muito engraçada, mas ao menos era inteligente e usava sempre um adereço característico do gajo que estava a encarnar para que um gajo entendesse. Mas tu, Edward? Tu nem isso. Que actor mais desleixado, enfim...

Silencia-se então durante alguns segundos, olhando para baixo aparentando estar pensativo. Volta a olhar para a câmera pouco depois.

Jorge Gante: Creio que já me prolonguei demasiado. Fiz este vídeo única e exclusivamente para te informar que não vale a pena fazeres mais vídeos sobre o controlo e o descontrolo, e sobre essas merdas todas que nós já sabemos de trás para a frente e que tu adoras tanto...

Mais uma pausa.

Jorge Gante: Até porque eu não tenho tempo para ver e de certeza que mais ninguém te quer ouvir... Hoje vou ter uma reunião com um electricista para ter a certeza que está tudo perfeito lá no estádio e que aquele truque das luzes, Edward, que usaste na semana passada contra o Alex não volta a acontecer... Amanhã estarei no Especial Battlecry, como já deves saber, tão informado que és sobre tudo... E domingo, bem, domingo...

Olha para a câmera com agressividade.

Jorge Gante: Estarei a dar-te a sova da tua vida às claras. Às claras, claro, enquanto conseguires abrir os olhos... Porque depois Edward, vai ficar tudo muito escuro para ti.

A imagem sofre novamente movimentos bruscos, deixando de ser visível Gante.

Jorge Gante (ao longe): Resto de bom dia, Edward.

A imagem desvanece em movimentos imperceptíveis.

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