Porquês

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Porquês

Mensagem por Fenomenal em Ter 10 Fev 2015, 02:01

Alexandre Torres está na sua cama, sentado debaixo dos lençóis. A luz de presença da sua mesa-de-cabeceira está ligada. É uma luz azul, fraca e discreta, mas ainda assim é o suficiente para permitir que Alex consiga observar o rosto da sua mulher enquanto dorme. Isto acalmava-o.

Enquanto ela dormia tinha aquele ar de menina que ele conhecia tão bem, embora o tivesse visto apenas por raras vezes. Amava-a mais por esse lado de menina do que pela mulher durona e independente que ela parecia ser aos olhos de toda a gente. Tal como ela o amava mais a ele pelo seu bom coração do que pelas suas palhaçadas que insistia em fazer à frente de todos.

Certo que o choque entre a personalidade de um e outro tinha, de alguma forma, proporcionado um estranho equilíbrio entre eles desde que se conheceram, mas a verdade é que se amavam por razões que iam muito além do que aquilo que cada um deles era à superfície. Daí ser um amor forte e, indubitavelmente, genuíno.

Eram agora quatro da manhã. Alex, que por norma é daqueles que adormece assim que a sua cabeça assenta na almofada, está a passar uma noite em branco. Está a pensar. A sua mente não pára, trabalha incessantemente, não o deixa dormir. Questões ininterruptas seguem-se umas às outras numa cadeia sem fim. “Porquês” aos quais Alex sente necessidade em dar a uma resposta. O maior de todos eles, o porquê de ele ter feito o que fez no final do Battlecry, salvando Gante do ataque de Chaser, envolvendo-se numa guerra a que não pertencia.

Alex nunca foi um homem de guerra. É normal que alguém que não goste de lutar não goste, igualmente, de guerra. Aliás, é normal que abomine a simples ideia de guerra. E agora ele colocara-se a si próprio como elemento activo de uma guerra. Mas porquê? Ele não tinha que o ter feito e sabia disso mesmo.

Quando se decidiu a correr pela rampa abaixo e devolver a justiça ao seio da Federação à qual agora pertencia, a própria mulher o tentou dissuadir. Agarrou-o pelo braço, disse para não o fazer. Natália olhou-o nos olhos, num jeito quase suplicante, quando o disse. A regra era ouvir as palavras da sua mulher. Aquela noite foi uma excepção à regra.

A sua mulher sempre fora uma lutadora e sempre teve gosto em sê-lo. Da mesma forma que tinha agora gosto em vê-lo como um lutador. Era algo que ela entendia, ser-se um lutador. Percebia a essência do que é ser-se um lutador. Talvez melhor do que ninguém.

Mas no instante em que o marido decidiu fazer frente a Pavão e interferir no combate principal daquela noite ele deixara de ser um lutador. A sua decisão fez dele um guerrilheiro. E embora Natália fosse uma mulher de luta, ela também não era, de maneira alguma, uma pessoa de guerra. Na luta há respeito. Na guerra, na guerra não há nada, nem um mero pingo de humanidade, quanto mais respeito. À guerra ela não já entendia.

Quando Alex reencontrou Natália nos corredores dos bastidores do Battlecry os dois deram as mãos e correram. Puseram-se em fuga, procurando a saída mais rápida daquele lugar. Fazendo o que podiam fazer para escapar a eventuais represálias da frente inimiga. Tinham entrado em estado de guerra. Os dois. E ambos o reconheciam. Alex apenas dera conta da extensão completa dos seus actos naquele momento, quando ambos corriam pelos corredores de mãos dadas. Inadvertidamente, arrastara a sua mulher para um campo de guerra. Colocara a pessoa que mais amava numa posição de alto risco.

Quando encontraram a saída e se puseram para fora daquele sítio, Natália confessou-lhe que, embora o tivesse tentado convencer a nada fazer naquela noite, sabia antecipadamente que o seu esforço acabaria por ser infrutífero. Sabia-o porque o conhecia. E aquilo que ele fizera era resultado daquilo que realmente era. Era um daqueles traços seus que não saltava aos olhos de toda a gente, que não estava à superfície, mas que era parte assente de quem ele era. E que ela amava.

E o que ele fizera apenas a tinha deixado com mais e mais orgulho dele e que ele a tem orgulhado agora mais do que nunca. Essas palavras fizeram com que Alex sorrisse e, por uns breves momentos, fizeram-no feliz. Mas depois tornou a recordar-se das reais consequências do que fizera. De como colocara em perigo a pessoa que mais queria proteger. Por que motivo o fizera?

De volta à cama, à realidade, ao presente, Alex passa a mão pela face de Natália num gesto terno. Levanta-se, abre o guarda-vestidos da maneira mais silenciosa que consegue e de lá tira umas calças de fato-de-treino e uma t-shirt. Passo ante passo vai para a casa de banho, despe o pijama e entra na banheira, onde toma um duche. Enquanto se banha, os suspiros profundos sucedem-se.

Sai do banho e seca-se na sua toalha. Não obstante o frio imenso, fica em pêlo a encarar o espelho, a encarar o olhar intenso que tem cravado no seu rosto. Passa a mão pela barba farta. Abre o armário que está ao seu lado e de lá tira a espuma e uma Gillette. Demora-se a fazer a barba, erradicando todos os pêlos na sua face até ao último. Pelo meio fez um golpe no pescoço. Não se importa, passa o after shave, sente o álcool a arder-lhe na ferida enquanto observa o sangue a escorrer.

Veste a t-shirt e as calças de fato-de-treino. Sai da casa de banho e com passos confiantes caminha rumo à sala de treinos. Entendeu que não era altura de se perder em porquês, mas sim de se preparar para a Grande Guerra. Quanto mais não fosse por ela. Por ela. Por ela, sempre.
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