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Voltar a sentir

Mensagem por CChris em Qui 19 Mar 2015, 14:43

Nove dias. Nove dias foi o tempo que o calor durou. Durante nove dias, o frio deu espaço ao calor para que este possa fazer crescer a terra. Durante nove dias, as nuvens deram lugar ao sol para que os humanos possam orar a este. Durante nove dias, a escuridão ausentou-se e deu lugar à luz, para que esta, possa criar nova vida. Mas ao fim de nove dias, o ciclo da vida acabou, e o frio voltou. O Calor desapareceu para dar lugar ao frio, mais uma vez. A vida que com o sol, cresceu, com o frio, morre…
 
Lisboa. O frio voltou à capital portuguesa. As nuvens cobrem o céu, outrora limpo e azul, iluminado pelo sol, agora, cinzento e escuro. Alguma chuva vai caindo ao longo do dia, mas nada que não se aguente bem.
 
Diogo Lourenço está a deslocar-se ao longo de uma rua velha da capital. O calçadão em subida típico da cidade de Lisboa está molhado e Diogo vai fazendo o seu trajeto, vestido de negro, da cabeça aos pés. O mesmo trás as mãos dentro dos bolsos do seu casaco, longo e clássico.  O lutador de Tomar chega agora a um portão, alto, pintado de branco descascado pelo tempo. Ele entra no recinto e anda mais um pouco, até chegar a uma espécie de jardim. Um jardim cheio de túmulos, campas e jazigos. Algumas arvores estavam espalhadas pelo jardim, assim como um banco, que estava colocado debaixo do maior pinheiro que se podia avistar. Diogo senta-se nesse mesmo banco, olhando para o vazio.
 
Diogo (falando sozinho): Já algum tempo que não vinha aqui… já algum tempo que não te vinha visitar. Nunca senti a necessidade de tal. Não tenho sentido saudades tuas, de te ver, de te ouvir, de te sentir. E para ser sincero, não o sinto. Não estou aqui por ter saudades de ti. Não estou aqui porque quero estar contigo… estou aqui apenas porque preciso de ti.
 
O banco está colocado à de uma lápide simples, apenas com uma fotografia, duas datas, um nome e uma frase. Nada de flores, nada de decorações. Nu e cru, como Deus mandou o homem ao mundo.
 
Diogo: Tu morreste já faz quase dois anos… e só houve um momento em que sentir dor. No dia do funeral. Nunca senti aquela dor que as pessoas falam, a saudade, a tristeza, a angústia. Sentia no dia do funeral, porque estava rodeado de pessoas que assim se sentiam… mas deliberadamente, independentemente, sozinho, apenas eu… nunca senti. No domingo, vou combater contra alguém que se sente assim todas as horas do dia, todas as respirações do seu pulmão, todas as batidas do seu coração. A minha insensibilidade será uma fraqueza ou uma vantagem?
 
Diogo parece confuso… mas depressa começa a rir perante as suas questões, gozando com o desconhecido.
 
Diogo: Talvez a razão pela qual não consigo sentir saudade de ti… é por tu teres sido patético, fraco e inútil. Não passas-te de uma presença, uma sombra na minha vida… estavas lá mas nada fazias… morreste da mesma forma que viveste… sem ninguém se aperceber.
 
Diogo levanta-se do banco de jardim e aproxima-se agora da lápide. Esta dizia “Raul Lourenço, 4/12/1959-7/7/2013, Deus quer, o Homem sonha e a Obra nasce.” Lourenço ajoelha-se perante a lápide e lá fica, admirando a fotografia do seu tio falecido.
 
Diogo: Até mesmo a frase que ficou gravado no sitio do teu eterno descanso, reflecte no quão insignificante tu és para este mundo. Apenas um agente da obra, apenas um sonhador, apenas um boneco nas mãos de alguém maior que tu… Nesta frase, Deus e Obra deviam ser substituídas pela mesma palavra… Diogo. Eu quis! Tu sonhas-te… eu nasci! Eu cresci! Eu singrai, mas tu, apenas sonhas-te… nunca realizas-te nada, ao contrario de mim.
 
Diogo retira de dentro do casaco um cravo. Ele coloca-o junto à campa do seu tio e deixa-a lá ficar.
 
Diogo: Deixo aqui este cravo para te lembrares de mim como aquele que nunca precisou de ti, aquele que a tua morte não afetou. Aquele que é independente de sentimentos, de desejos, de emoções e afetos. Deixo-te esta prenda para saberes o quão melhor eu sou em relação a ti…
 
Diogo levanta-se e, ainda em frente à lápide, desaperta as calças, abrindo a breguilha. Diogo começa a urinar para a lápide de seu tio.
 
Diogo: E deixo-te os meus excrementos, para te alimentares deles e só assim, alguma vez poderás ser como eu em alguma coisa, nem que seja ao meu mijo.
 
Diogo acaba de urinar e volta a apertar as calças, assim como a fechar a breguilha. Diogo sai do local, dirigindo-se para a saída, ainda falando.
 
Diogo: Domingo, vais voltar a assistir a minha batalha contra a morte, e o resultado, será o mesmo. Eu a não sentir nada e a morte a cair perante os meus pés, face à minha indiferença a esta.
 
Diogo abandona o local, sereno e descontraído, com um objectivo na cabeça, uma missão, uma convicção: Derrotar Kevin Gunn, dia 22, no PPV da UWL, Claustrophobia.

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