Miséria

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Miséria

Mensagem por Shotgun em Seg 17 Ago 2015, 04:34

Na imagem destaca-se apenas um fundo escuro, com tons avermelhados como se tratassem de salpicos de sangue figurados na parede. A mesma imagem não é constante, já que a iluminação na sala tende a falhar de forma frequente, gerando um ambiente e uma vibração consideravelmente vermelha. O piso não é de todo visível, mas lentamente se vão ouvindo sons de pedras a ser pisadas. A intensidade e frequência dos mesmos, à medida que as luzes se vão, mais e mais, desvanecendo. Num dos poucos momentos em que o cenário focado pela câmara é totalmente claro, cascalho voa por todas as direções. Eis que, em perfil, Shotgun Eddy se mostra como protagonista.

Shotgun Eddy: Hoje, mais do que nunca, um termo espalha-se com facilidade. E como frequentemente acontece, essas mesmas expressões são mal empregues. O problema, esse, é que não há quem tenha um curto nível de inteligência, mas suficiente para acordar todos aqueles que caem e apodrecem num poço de ignorância, de uma aparente felicidade que não passa do total desconhecimento.

Abana negativamente a cabeça, suspirando de forma lenta e perfeitamente audível. Nos poucos vislumbres de luz, o norte-americano apresenta-se de posição frontal para a câmara, de cabelo amarrado e com uma madeixa vermelha. Veste umas calças de ganga claras, pingadas de manchas também elas vermelhas, e um sobretudo negro, gasto e com uma das mangas suspensas apenas por algumas linhas. É, por fim, visível o constante movimento da sua perna esquerda. Continua a abaná-la como se de um tique ou movimento inconsciente se tratasse. É para aí que foca a sua atenção por breves momentos, antes de prosseguir com a sua argumentação.

Shotgun Eddy: E a lista é quase interminável. Infelizmente - ou felizmente para quem ambiciona ser superior àquilo que o rodeia, a todos os níveis - é um trend mundial que se propaga de forma supersónica. Não me posso dizer surpreendido, contudo: antes de tudo isso, já a ANALfabetização - porque no fundo são todos vocês a levar no cu de quem vos controla - e a mutilação intelectual eram fenómenos existentes e recorrentes. Um desses termos gera-me particular interesse, particular entusiasmo. Porque além de ser utilizado de forma criminalmente errática, é, mais do que tudo, uma miragem. Uma ilusão os nível dos melhores. Dos piores, claro.

Antes de toda a luz se desvanecer por alguns momentos, é fácil verificar que os seus movimentos faciais e corporais começam a denotar uma maior robotização, maior lentidão. Revela ansiedade.

Shotgun Eddy: Pois, a miséria não é lidar com uma lâmpada confusa. Nem tão pouco chorar pela morte alheia, pela bancarrota financeira ou pelo buraco espiritual... a miséria não é trabalhar num super-mercado - num país pequeno tudo se sabe -, nem tão pouco o atual estado do wrestling português. Miséria não é ter fome nem ser irresponsável ao ponto de causar fome ao próximo. Este termo é tão mal empregue que por muito pouco não me dá pena. E é realmente necessário ter alguém a liderar, a mostrar realmente as coisas como elas são. Por muito que de nada sirva.

O seu tremor corporal continua a crescer de intensidade.

Shotgun Eddy: Miséria é muita coisa, mas não é isso... a miséria é ter um inimigo, um rival absolutamente louco. Um louco que te vai fazer mal, que ultrapassa quaisquer obstáculos para infringir um grau de dor superior ao que é humanamente imaginável. Miséria é estar desamparado com alguém pela frente. Alguém que treme, que desespera por não conseguir esperar mais. Que não consegue cessar o seu próprio tremor porque tem necessidade de magoar, de marcar permanentemente.

O americano despede lentamente o sobretudo, atirando-o para o chão com uma enorme brutalidade. O seu sorriso é visível nos breves vislumbres de luz.

Shotgun Eddy: É estar indefeso no meio de um ringue à procura de perdão, de salvação, de algo ou alguém que lhe tire de um aprisionamento que não parece ter fim. Estar na miséria é ser esmurrado impiedosamente e sem escrúpulos ou qualquer mecanismo que lhe valha. É, naquele instante, ver todos os falhanços monumentais da vida a rodar no subconsciente enquanto uma inteira existência está dependente da vontade de alguém. Alguém cujo maior prazer é justamente esse.

Vira as costas à câmara sem proferir nenhuma palavra enquanto o faz. O único som audível é novamente de pequenas pedras a serem pisadas pelas suas botas. Lentamente se aproxima da parede, a qual olha durante alguns segundos sem mexer um músculo. Os tremores parecem ter cessado. Segue-se um suspiro, passando as mãos pelos salpicos encarnados logo de seguida.

Shotgun Eddy: Pois eu já estive nesse lado de total agonia. Já tive droga dentro do meu corpo, assim como já estive fechado num estabelecimento onde a vontade soberana não me pertencia. Já estive enjaulado num local onde diariamente seres humanos eram abusados de quase todas as formas imagináveis. Mas esta parede, estas marcas de sangue, estas feridas... estão secas. E a iluminação, ou falta dela, provam que já estão praticamente invisíveis. Tornam-se visíveis, apenas, quando a minha vontade é de analisar aquilo que fiz a mim próprio e sobretudo aquilo que me podiam ter feito, mas que não fizeram porque são fracos. E só os fracos perdoam.

Na total escuridão, o silêncio prolonga-se durante alguns segundos.

Shotgun Eddy: Nesta altura não me importava de estar fechado num caixão. Nem tão pouco me importaria de ser cinzas num rio se soubesse que algo tão brutal tivesse sido executado por alguém que realmente pensasse como eu. Mas a verdade... é que não há ninguém. E neste mundo há que haver líderes, aqueles que não aceitem o perdão como opção em toda a duração da sua vida. Os líderes que crucifiquem os fracos, como eu próprio tentei. Mas, novamente, nem todos pensam da mesma forma. E NINGUÉM, SENÃO DIOGO LOURENÇO, SABERÁ O QUE É REALMENTE ESTAR NA MISÉRIA. PORQUE MISÉRIA É SER DIOGO LOURENÇO NO CONFLICT.

Eddy começa a caminhar fora do alcance da câmara, caminhando em passos que se ouvem cada vez mais lentos e distantes do cenário.
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